segunda-feira, agosto 27, 2007

Talvez um dia...


Sim, talvez um dia me dispa de preconceitos e venha a publico admitir as variações das ondas P da minha caixa de fusíveis. Quem sabe nesse dia, talvez me solte das falas mansas e discurse os sentimentos em uma só voz de comando. Mande uns quantos gritos de revolta em torno deste nosso sentimento, que nos empurra a alma para o charco. E quem sabe, talvez nesse dia acabe de vez com este nosso estranho fado que nos obriga a gostar de estar na merda.
Talvez quem sabe um dia…
Assuma de uma vez por todas este meu movimento Narcisista, esta minha estranha forma de me sentir bem. Talvez nesse dia venha a descobrir que não faço suspirar todas as mulheres que se atravessam em meu passeio, que afinal não me observam atentamente enquanto desço a calçada em suaves passos de estilo.
Quem sabe talvez um dia…
Venha mesmo a descobrir a combinação secreta, que abre esse teu coração escondido na dor. Talvez nesse dia te assalte a alma e te roube esse teu sentimento de imponência, que te rasga o sorriso em cada passo teu, em cada momento em que me dizes que não.

Quem sabe…

Talvez um dia…

Venhas a entender a dor que me percorre a alma…

O amor que me assola os sentidos

A raiva que me rasga o coração

Quem sabe talvez um dia...

sábado, agosto 18, 2007

Love or sex?

Gosto tanto de ouvir-te como de tocar-te.
Só depende do momento.
Quando os dois momentos são um só, fica perfeito.
E então, gosto de olhar-te,
Enquanto te cheiro
E perco-me a sentir-te...

sábado, agosto 11, 2007

Nada Vence as Paixões Profundas de Cada Um

As paixões opõem-se às paixões, e podem servir de contrapeso umas às outras; mas a paixão dominante não se pode conduzir senão pelo seu próprio interesse, real ou imaginário, porque ela reina despoticamente sobre a vontade, sem a qual nada se pode. Contemplo humanamente as coisas, e acrescento nes­se espírito: nem todo o alimento é próprio para todos os cor­pos; nem todos os objectos são suficientes para tocar deter­minadas almas. Quem acredita serem os homens árbitros soberanos dos seus sentimentos não conhece a natureza; consiga-se que um surdo se divirta com os sons encantado­res de Mureti, peça-se a uma jogadora, que está a jogar uma grande partida, que tenha a complacência e a sabedo­ria de se enfadar durante a mesma, nenhuma arte pode fazê-lo.
Os sábios enganam-se quando oferecem a paz às paixões: as paixões são inimigas dela. Eles elogiam a mo­deração para aqueles que nasceram para a acção e para uma vida agitada; que importa a um homem doente a delicadeza de um festim que lhe repugna? Nós não conhecemos os defeitos de nossa alma; mas ainda que pudéssemos conhecê-los, raramente havería­mos de os querer vencer.
As nossas paixões não são distintas de nós mesmos; al­gumas delas são todo o fundamento e toda a substância da nossa alma. O mais fraco dos seres iria querer perecer para se ver substituído pelo mais sábio? Dêem-me um es­pírito mais justo, mais amável, mais penetrante, aceito com alegria todos esses dons; mas se me tiram também a alma que deve desfrutar dele, esses presentes não são nada pa­ra mim.
Isso não dispensa ninguém de combater os seus hábitos e não deve inspirar aos homens nem abatimento nem tristeza. (...) A virtude sincera não abandona os seus amantes; os próprios vícios de um homem bem-nascido podem passar a contribuir para a sua glória.

Luc de Clapiers Vauvenargues, in 'Das Leis do Espírito'

segunda-feira, julho 23, 2007

A vida serve para foder, amar, e morrer...

Passamos a vida a tropeçar em desencontros, em chegar tarde de mais ao que queremos viver. Por isso é que vivo tudo o que me dá na real gana. Estes últimos anos foram prodigiosos, sinto que rejuvenesci... sim, porque o sexo renova.
A quantidade de flirts, noites com Harmony, e outras menos harmoniosas que passei, fazem-me saber bem o que quero... quero continuar a viver de uma forma despreconceituosa. A opinião dos outros sobre a minha vida é pouco relevante.
É bom saber que vou sempre a tempo de viver o que quero, porque o coração nunca se deve adiar.

domingo, julho 22, 2007

Poema com palavras usadas

( Tardei em responder ao meu próprio desafio... mas cá está!)

Mega & JB

Reconhecer o talento
Ocultar os disparates
Dinheiro excêntrico
Aplausos aos dislates

Coleccionador de nomes
Minha sombra, meu ego
Imperfeições sublimes
Sentimento sem apego

Fantástico é o poder
Libertar o criador
Fantástico é parecer
Essa a arte do sedutor

Público poderoso
Agir para o que for
Trabalhar e expor
Num museu fabuloso
_____________
Pedro Arunca
2007/07/22

domingo, julho 08, 2007

Quase...


"Pior que a convicção de um não
ou a incerteza de um talvez
é a desilusão de um "quase"
é o quase que me incomoda, que me entristece,
que me mata trazendo tudo o que poderia ter sido e não foi.
Quem quase ganhou, ainda joga
Quem quase passou, ainda estuda
Quem quase morreu, está vivo
Quem quase amou, nunca amou"
(Luís Fernando Veríssimo)
Muitas vezes penso nas coisas que quase fiz, nas palavras que quase disse, nos lugares onde quase cheguei, nas pessoas que quase conheci, nos desejos que quase realizei, nos momentos que quase vivi.
Não penso nelas como uma perda... na verdade, nunca cheguei a tê-las. Estive perto. Estive quase.
Nunca ninguém me disse que não as podia ter. Nunca ninguém me disse que não as merecia. Apenas me desencontrei de umas e cheguei tarde a outras.

Consigo lidar bem com as perdas definitivas. Sou Escorpião e, tal como dizem os astros, morro e renasço facilmente. Supero o que não é possível. Esqueço o que não está ao meu alcance.
Um não doi, magoa, fere... mas liberta-me e faz-me querer virar a página. Consegue ter em mim um poder regenerador, que me faz querer seguir em frente, mesmo que noutra direcção.

Já o talvez desafia-me, atiça-me, motiva-me. Saber que talvez possa ir por ali, ou por acolá... saber que talvez possa chegar onde quero... que talvez possa ser, sentir, viver o que desejo... deixa-me inquieta, ansiosa e desperta em mim uma teimosia sem limites.
O talvez incomoda, enerva, fervilha... mas tem um gosto doce de possibilidade, que só perderá ao transformar-se num não.

Mas o quase... deixa uma sensação de vazio. Vazio de algo que esteve próximo, mas não chegou a estar.
É um talvez que deixou de o ser, mas que nunca chegou a ser não. É um livro que perdi, sem ter acabado de ler.
Dizer que se esteve "quase a.." poderá parecer reconfortante. Afinal, significa que tentámos, que fizemos alguma coisa e que quase conseguimos. Não foi uma derrota imediata. Tivemos possibilidade e estivemos quase lá.
Quase... mas não chegámos a estar.

Não gosto dos quases que existem na minha vida. Não me libertam. Não me reconfortam. Pelo contrário, transformam tudo o que esteve quase... em quase nada.

sexta-feira, julho 06, 2007

Hey Joe...

O Pedro Arunca propôs-nos publicarmos aqui no "Pedaços de Nós" um texto retirado de um jornal, o qual ele irá utilizar como base de inspiração para construir um poema.
Vou transcrever um artigo de opinião do Fernando Marques, intitulado "Hey Joe...", e publicado no Jornal de Notícias do dia 01/07/2007.

Quando eu for rico como Joe Berardo e tiver uma colecção de arte ainda mais moderna e contemporânea do que a dele, hei-de lembrar-me que o dinheiro pode comprar aplausos para os meus disparates, mas jamais será capaz de ocultar as minhas imperfeições. Hei-de lembrar-me de não agir como dono do mundo, porque, querendo parecer o que não sou, serei exactamente aquilo que pareço uma ilusão.

Quando eu for excêntrico como Joe Berardo e quiser expor os meus valiosos tarecos artísticos num museu, hei-de lembrar-me que não fui eu que os fiz; e que, por isso, é inútil e ridículo emprestar-lhes o meu nome, oferecer-lhes a minha sombra, sobrepor-lhes o meu ego. Hei-de lembrar-me de os libertar do meu sentimento de posse, do meu apego, para que, destituídos de mim, exprimam o que realmente são.

Quando eu for poder como Joe Berardo, hei-de lembrar-me de designar as pessoas pelos seus nomes. Hei-de lembrar-me de não dizer "O homem não está a ser bem aproveitado, talvez até nem precise de trabalhar", como se esse homem sem nome - que, por acaso, se chama António Mega Ferreira e, por acaso, é presidente do CCB e, por acaso, é um criador e não um coleccionador - fosse apenas mais um objecto do meu acervo.

Quando eu for extraordinário, sublime, fantástico, belo e sedutor como Joe Berardo, hei-de lembrar-me de permitir que os outros sejam tão extraordinários, sublimes, fantásticos, belos e sedutores como eu. Por exemplo, hei-de lembrar-me de reconhecer o talento de Rui Costa e o direito que ele teve de cumprir o melhor da sua carreira fora do Benfica. E hei-de lembrar-me - apesar do tipo fabuloso que eu serei quando for extraordinário, sublime, fantástico, belo e sedutor como Joe Berardo - de pensar duas vezes antes de emitir juízos públicos sobre outras pessoas. Não porque isso pesasse realmente no curso próspero da minha vida. Apenas para evitar que eu, um homem tão rico, excêntrico, poderoso, extraordinário, sublime, fantástico, belo e sedutor como Joe Berardo, tivesse que andar sempre a pedir desculpas pelos meus dislates.

Pedro desejo-te boa sorte para esta iniciativa, e espero que o texto te inspire...

Texto original pode ser lido [Aqui]

quarta-feira, julho 04, 2007

Poema com palavras usadas

Não, não é uma campanha nem uma corrente. É um desafio a que me proponho. Só preciso que, pelo menos um dos inquilinos deste blogue, me forneça um, dois ou três textos (artigo, notícia, ensaio, etc) retirado(s) dum jornal e/ou revista conhecido(s) (DN, JN, Público, Expresso, etc).
A ideia é tentar construir um poema a partir das palavras usadas nesse(s) texto(s).
O(s) texto(s) deverá(ão) ser "postados" previamente (digitalizado se possível e mantido na posse do "postador").

Um abraço

domingo, junho 24, 2007

O Meu Olhar Sobre o Mundo


Like a Summer in Paris... at night
Far away from all my worries... I can live again
Far away from the cool... I run away... to Paris
And in your arms, I forget myself... all night long

Summer in Paris...
Like a Summer in Paris... at night
A sublime desire of a Summer in Paris
I miss that kiss...
On Summer in Paris...


fotografia: Å®t Øf £övë
música: Summer in Paris

sábado, junho 23, 2007

A mulher que oferecia pedras

“Nunca escreveu cartas de amor. A mulher, que também poupava palavras, não deixou nunca de lembrança escritos de amor a ninguém. Não porque não o sentisse, apenas não o escrevia. Por que haveria de o fazer? Quando amava alguém, estivesse essa pessoa perto ou distante, oferecia pedras. Não eram preciosas, senão para ela. Pedras normais. Podia recolhê-las na praia, numa serra, na rua. Podiam ser brita, pedras cristalinas, calcárias, pirites, quartziticas... Podiam ser ovais, macias, rugosas, redondas... um cubo tosco da pedra de calçada. Eram sempre diferentes. Todos os seus amantes tinham uma pedra sua. Só uma, que a mulher nunca foi de excessos. Afinal, bastava dizer uma vez que os amava. Mesmo as cartas de amor não são tão frequentes. Na pedra estava tudo o que sentia.
Um dia a mulher morreu. No seu funeral reuniram-se os amantes. Cada um com a sua pedra. Não era algo que não guardassem. Não se rasga como se faz com uma carta de amor. E nunca levariam consigo uma carta de amor, já a pedra...
Ao encontrarem-se não evitaram a comparação. Não seria por isso que as teriam levado? Qual seria a mais bonita. A mais rara. A de mais valor. Qual mostraria uma maior indiferença. Não contava ali a duração da relação. Nem tão pouco as relações que implicaram uma vida a dois. Apenas as pedras. Uma pedra pequena, branca, igual a tantas outras em qualquer praia, só poderia significar desdém. A pedra-pomes valeria mais do que o granito comum? Um deles garantia que a sua pedra oval de um esverdeado transparente era, sem dúvida, rara. Se as cartas de amor que, a cada altura e para cada pessoa, são escritas com a mesma verdade, beleza e intensidade, porque não poderiam ser as pedras iguais? Cada uma, única. Cada uma bela. Cada uma amável. Cada uma, a seu tempo, no seu tempo, especial. Mas para eles, que se exaltavam já, tinha de haver uma hierarquia. A mulher diria, como Angel Cabeza, ao vê-los, se os visse “Os homens sofrem como as pedras: cheios de musgo verde e caras feias”.
Um dos amantes esteve sempre em silêncio. A sua pedra, a mais pequena, que fechava na sua mão, tinha escrito o nome da mulher. Sorriu. Foi embora. Nada disse, como a pedra, que nada dizendo, disse-o.”

Voz que se cala

Amo as pedras, os astros e o luar
Que beija as ervas do atalho escuro,
Amo as águas de anil e o doce olhar
Dos animais, divinamente puro.

Amo a hera que entende a voz do muro
E dos sapos, o brando tilintar
De cristais que se afagam devagar,
E da minha charneca o rosto duro.

Amo todos os sonhos que se calam
De corações que sentem e não falam,
Tudo o que é Infinito e pequenino!

Asa que nos protege a todos nós!
Soluço imenso, eterno, que é a voz
Do nosso grande e mísero Destino!...

(Florbela Espanca)

segunda-feira, junho 18, 2007

Com pouco... se diz muito...

"A infelicidade é não saber o que se quer
e fazer um esforço enorme para consegui-lo"

sexta-feira, junho 15, 2007

like a dream

No silêncio da noite sentiu a memória tocar-lhe os lábios.

Num tempo fugaz. Efémero. Mordaz.

De mãos aveludadas percorreu-lhe o corpo, em doces palavras murmuradas. Caladas. Consentidas.

Vibrou ao orgasmo duma lua ofuscada.

Sensações encontradas, apanhadas, guardadas numa ansiedade violada.

No calor do abraço roubou-lhe o beijo, o fôlego e a paixão.

Num tempo curto, demasiado curto de tão longo, permitiu-se viver, reviver, cansar-se, atordoar-se, esgotar-se.

Revolveu-se. Revoltou-se.

Escutou. Indagou. Protestou. Consumou.

Na calada da noite, num momento fugaz, efémero, mordaz, o medo possuiu-se. O pânico emulou-se, o silêncio calou-se e o tempo... adormeceu.


quarta-feira, junho 13, 2007

O meu "Pedaço" # 14

Não compreendo as mulheres que choram a qualquer momento por tudo e por nada... Irritam-me... porque parece que vertem lágrimas como se estivessem a fazer chichi.
Ao menos eu, quando sinto vontade de chorar, finjo que estou com um aperto, vou à casa de banho e abro as torneiras para molhar a cara.
Não pensem que sou contra o choro. Não, nada disso, até porque as lágrimas nas mulheres... refrescam-me... levantam-me a moral... e às vezes até lhes lambo os cantos dos olhos... a mim sabe-me como beber umas caipirinhas... só que sem álcool... inteiramente naturais!!!
Quando digo "não chores" funciona sempre, porque só de mencionar o verbo "chorar" emociona-as, e liberta-as para chorarem ainda mais!!!
Só intervenho com palavras de esperança, e de amor quando elas vão longe de mais e começam a pingar do nariz.
As mulheres depois de chorar ficam quase sempre com vontade de fazer amor. É como se apanhassem uma chuvada... ficam todas molhadas... e eu funciono como a toalha que está mais à mão...
E as que choram depois de fazerem amor? Estarão assim tão arrependidas? Comovidas? Simplesmente agradecidas?
Gostaria de pensar que sim... de preferência as três coisas ao mesmo tempo... mas a verdade é que nem elas próprias sabem!!!
Riem-se logo de seguida... mas as piores são as que se riem logo ao princípio... mas a verdade é que as piores também são as mais queridas...
É horrível, não é?
Mas só um santo é que não se aproveitaria...

domingo, junho 10, 2007

A Idade do Silêncio

A primeira linguagem que os humanos tiveram foi os gestos. Não havia nada de primitivo nesta língua que brotava das mãos das pessoas, nada que hoje se diga que não pudesse ser dito nesse imenso rol de movimentos possíveis com os ossos finos das mãos e dos dedos. Os gestos eram complexos e subtis, envolvendo uma delicadeza de movimentos que se perdeu completamente desde então.
Durante a Idade do Silêncio, as pessoas comunicavam mais, e não menos. As necessidades de sobrevivência exigiam que as mãos quase nunca estivessem paradas, e a única altura em que as pessoas não estavam a dizer isto ou aquilo (e por vezes nem aí) era quando estavam a dormir. Não havia qualquer distinção entre os gestos da linguagem e os gestos da vida. A acção de construir uma casa, por exemplo, ou de preparar uma refeição, exprimia tanto como fazer o gesto para dizer, Eu Amo-te ou Sinto-me sério. Quando uma mão era usada para esconder uma cara assustada por um ruído violento, isso era dizer alguma coisa; e quando os dedos das mãos eram usados para apanhar alguma coisa que alguém deixara cair no chão, também aí, algo estava a ser dito. Naturalmente, também havia mal-entendidos. Por vezes, um dedo podia ser erguido apenas para coçar o nariz, e no caso de haver um contacto visual fortuito com um amante nesse preciso momento, então o nosso amante poderia tomar acidentalmente esse gesto, em tudo idêntico, ao que usaríamos para dizer, Agora percebo que fiz mal em amar-te. Estes mal-entendidos eram de partir o coração. No entanto, como as pessoas sabiam como era fácil eles acontecerem, como não viviam na ilusão de se entenderem perfeitamente umas às outras, estavam habituadas a interromper-se umas às outras para perguntar se tinham entendido bem. Às vezes estes mal-entendidos eram até desejáveis, pois davam às pessoas o ensejo de dizer Desculpa, estava só a coçar o nariz. Claro que sei que fiz bem em amar-te. Devido à frequência destes erros, com o tempo o gesto para pedir perdão evoluiu para a forma mais simples. O simples gesto de abrir a palma da mão passou a querer dizer: perdoa-me.
Tirando uma excepção, praticamente não existe nenhum registo desta linguagem primeira. A excepção, na qual se baseia todo o conhecimento sobre o assunto, é uma colecção de setenta e nove gestos fossilizados, impressões de mãos humanas congeladas a meio das frases, conservadas num pequeno museu em Buenos Aires. Uma delas representa o gesto para Às vezes quando a chuva, outra para Ao fim destes anos todos, e outra para Terei feito bem em te amar?
Se em grandes reuniões ou festas, rodeados de pessoas de quem nos sentimos distantes, sentimos por vezes as nossas mãos pender desajeitadamente na ponta dos braços – se não sabemos bem o que fazer com elas, possuídos pela tristeza que sobrevém quando reconhecemos a estranheza do nosso próprio corpo – é porque as nossas mãos têm memória de um tempo em que a divisão entre corpo e mente, cérebro e coração, o que está dentro e o que está fora, era muito menor. Não é que nos tenhamos esquecido da linguagem dos gestos por completo. O hábito de movermos as nossas mãos enquanto falamos ficou-nos desse tempo. Bater palmas, apontar com o dedo, esticar o polegar para cima: são tudo artefactos de gestos antigos. Dar as mãos, por exemplo, é uma forma de relembrarmos a sensação de estarmos juntos sem dizer nada. E à noite, quando a escuridão já não nos deixa ver, sentimos a necessidade de gesticular uns aos outros para nos fazermos entender.

quarta-feira, junho 06, 2007

Be happy

Felicidade é olhar para trás e acreditar,
que ainda assim, tudo valeu a pena!

sábado, junho 02, 2007

A idade do fio

Há tantas palavras que se perdem. Mal saem da boca perdem a coragem, errando objectivos até serem engolidas pela valeta como folhas secas.
Houve um tempo em que não era invulgar usar-se um bocado de fio para orientar as palavras que de outro modo poderiam perder-se pelo caminho e não chegar aos seus destinos. As pessoas tímidas traziam pequenos novelos de fio nos bolsos, mas considerava-se que os palradores também necessitavam deles, pois quem estava habituado a fazer-se ouvir inadvertidamente por toda a gente sentia por vezes dificuldade em ser escutado. A distância física entre as pessoas que usavam os fios podia ser muito pequena; por vezes, quanto menor era a distância, mais o fio era necessário.
A prática de atar copos à ponta dos fios veio muito mais tarde. Há quem diga que esta está relacionada com a necessidade irreprimível de levarmos conchas aos ouvidos, de ouvirmos o eco que ainda subsiste da expressão primordial do mundo. Outros dizem que foi iniciada por um homem que guardou a ponta de um novelo que se foi desenrolando através do oceano por uma rapariga que partiu.
Quando o mundo se tornou maior, e já não havia fio suficiente para impedir que desaparecessem na imensidão do mundo as coisas que as pessoas queriam dizer, foi inventado o telefone.
Às vezes não há fio que seja suficientemente comprido para dizer aquilo que é preciso dizer. Em tais casos a única coisa que o fio pode fazer, qualquer que seja a sua forma, é conduzir o silêncio de uma pessoa...

quarta-feira, maio 30, 2007

O pensamento masculino




O que dificulta o pensamento do Homem (estou também incluído) é a localização do nosso cérebro...!!!

segunda-feira, maio 28, 2007

O Outro

Depois de lerem este texto verdadeiramente fabuloso, vão entender porque não resisti a transcrevê-lo!!!
Quando chegarem ao final só conseguem dizer: realmente é uma grande verdade...


Após acompanhamento de vários casos, ficou provado que toda mulher precisa de dois homens: um em casa e outro fora de casa. Para entender, é muito simples:

O marido cuida da parte financeira, paga as contas dos filhos, da esposa, e da casa.
O outro cuida de você.

O marido fala dos problemas, das contas a pagar, das dificuldades do dia.
O outro fala da saudade que sentiu de você durante a sua ausência.

O marido compra uma roupa nova para ir a um compromisso de trabalho.
O outro tira essa mesma roupa só para você.

O marido dorme com aquela camiseta velha e de cueca (às vezes até de meia).
O outro dorme completamente nu, abraçadinho a você.

O marido reclama das coisas que tem que consertar em casa.
O outro te recebe no apartamento onde tudo funciona perfeitamente.

O marido telefona para casa e fica perguntando o que tem que comprar no supermercado, padaria, etc.
O outro telefona só para dizer que comprou um champanhe que você vai adorar.

O marido reclama do chefe, do trabalho, do cansaço de acordar cedo.
O outro reclama a sua ausência e os dias que fica sem te ver.

Então põe-se a questão:
- Porque não trocar o marido pelo amante?
- Pelo simples facto de que o amante, se for viver com você, passará para o papel de marido e logo, logo, você precisará arrumar outro.

Ah... esqueci o imprescindível:
O outro nunca vai tomar cerveja com os amigos numa sexta-feira!!!

quinta-feira, maio 24, 2007

Eclipse

Andava eu a vaguear pela net, quando descobri este texto da Silvana Duboc, que muito provavelmente muitos de vocês já conhecem, mas mesmo assim decidi partilhá-lo aqui, porque o acho muito bonito...


Quando o SOL e a LUA se encontraram pela primeira vez, apaixonaram-se perdidamente. E a partir daí começaram a viver um grande amor. Acontece que o mundo ainda não existia, e no dia em que Deus resolveu criá-lo, deu-lhe então o toque final... O BRILHO!
Ficou decidido também que o SOL iluminaria o dia, e que a LUA iluminaria a noite. Sendo assim, seriam obrigados a viverem separados.

Abateu-se sobre eles uma grande tristeza quando tomaram conhecimento de que nunca mais se encontrariam. A LUA foi ficando cada vez mais amargurada, mesmo com o brilho que Deus lhe tinha dado, ela foi-se tornado solitária, e o SOL por sua vez tinha ganho um título de nobreza “ASTRO REI”!
Mas isso também não o fez feliz.
Deus então chamou-os e explicou-lhes: "Vocês não devem ficar tristes, ambos agora já possuem um brilho próprio. Tu LUA, iluminarás as noites frias e quentes, encantarás os enamorados, e serás diversas vezes motivo de poesias. Quanto a ti SOL, sustentarás esse título porque serás o mais importante dos astros, iluminarás a terra durante o dia, e fornecerás calor para o ser humano, e a tua simples presença, fará as pessoas mais felizes".

A LUA entristeceu-se muito com o seu terrível destino e chorou dias a fio...
Já o SOL, ao vê-la sofrer tanto, decidiu que não poderia deixar-se abater, porque teria que dar-lhe forças, e ajudá-la a aceitar o que tinha sido decidido por Deus. No entanto a sua preocupação era tão grande, que resolveu fazer um pedido a Deus: "Senhor, ajude a LUA por favor, ela é mais frágil do que eu, e não suportará a solidão". E Deus, com a sua imensa bondade, criou então as estrelas para que lhe fizessem companhia. A LUA sempre que está muito triste recorre às estrelas, que fazem de tudo para consolá-la, mas quase sempre não conseguem.
Hoje eles vivem assim... Separados!

O SOL finge que é feliz, e a LUA não consegue esconder que é triste. O SOL ainda aquece de paixão pela LUA, e ela ainda vive na escuridão da saudade.
Dizem que a ordem de Deus era que a LUA deveria ser sempre cheia e luminosa, mas ela não consegue isso... porque ela é mulher, e uma mulher tem fases. Quando está feliz consegue ser cheia, mas quando está infeliz é minguante, e quando está minguante nem sequer é possível ver o seu brilho.

LUA e SOL seguem seu destino...
Ele solitário... mas forte!
Ela acompanhada pelas estrelas... mas fraca!

Os Humanos tentam constantemente conquistá-la, como se isso fosse possível. Por vezes alguns deles conseguem chegar até ela e voltam sempre sozinhos. Nenhum deles jamais conseguiu trazê-la até à Terra. Nenhum deles realmente conseguiu conquistá-la, por mais que se convençam que sim.
Acontece que Deus decidiu que nenhum amor nesse mundo seria de todo impossível, nem mesmo o da LUA e do SOL... e foi aí então que ele criou o ECLIPSE.
Hoje o SOL e a LUA vivem à espera desse instante. Desses raros momentos que lhes foram concedidos, e que custam tanto a acontecer.

Quando olhares para o céu a partir de agora, e vires que o SOL encobriu a LUA, é porque ele se deitou sobre ela e começaram a amar-se. E é ao acto desse amor que se deu o nome de ECLIPSE.
Também é importante lembrar que o brilho do êxtase deles é tão grande que se aconselha a não olhar para o céu nesse momento, porque os nossos olhos podem cegar ao ver tanto amor...

quarta-feira, maio 23, 2007

"A origem dos sentimentos"

(continua... se alguém pegar)... Posso pegar Pedro? Vou ousar pegar, sim!
Não quero, nem sei questionar o Amor. Não questiono sentimentos mas sim, comportamentos, atitudes e decisões, tudo quanto seja sujeito à decisão do Homem.

"Amor é um não-sei-quê, que surge não sei de onde, acaba não sei como e dói não sei por quê." – Que melhor definição poderia haver para definir o que é, seguramente, indefinível?

O amor, os sentimentos, o que são, como se manifestam, qual a sua origem... “Questionando o Amor” recordou-me um livro que li recentemente, que gostei e porque entendo que em tudo se coaduna, passo a transcrever um excerto.

Os sentimentos não são tão antigos como o tempo.
Tal como houve um primeiro momento em que alguém esfregou paus para fazer uma faísca, houve uma primeira vez em que se sentiu a alegria, e uma primeira vez para a tristeza. Durante algum tempo, estavam constantemente a ser inventados novos sentimentos. O desejo nasceu cedo, bem como o arrependimento. Quando a teimosia foi sentida pela primeira vez, despoletou uma reacção em cadeia, criando o sentimento de ressentimento, por um lado, e a alienação e a solidão por outro. Poderá ter sido um certo movimento de ancas a marcar o nascimento do êxtase; um raio de trovão a causar o primeiro sentimento de assombro. Ou talvez fosse o corpo de uma rapariga. Contrariamente à lógica, o sentimento de surpresa não nasceu imediatamente. Só chegou depois de as pessoas terem tido tempo suficiente para se habituarem às coisas como elas eram. E quando esse tempo passou, e alguém experimentou o primeiro sentimento de surpresa, houve mais alguém, algures noutro sítio, a sentir o primeiro assomo de nostalgia.
Também é verdade que por vezes as pessoas sentiam coisas para as quais não havia palavras, e que por isso passavam em claro. Talvez a emoção mais antiga no mundo seja a comoção; mas descrevê-la – só nomeá-la – deve ter sido como tentar apanhar qualquer coisa invisível.
(Donde, mais uma vez, o sentimento mais antigo do mundo poderá ter sido simplesmente a confusão).
Tendo começado a sentir coisas, o desejo das pessoas de sentir foi crescendo. Queriam sentir mais, sentir mais profundamente, por mais que às vezes doesse. As pessoas tornaram-se viciadas em sentimentos. Esforçavam-se por descobrir novas emoções. É possível que tenha sido assim que nasceu a arte. Forjaram-se novas formas de alegria, bem como novas formas de tristeza: a eterna desilusão da vida como ela é; o alívio de um adiamento inesperado; o medo de morrer.
Mesmo hoje, ainda não existem todos os sentimentos possíveis. Há ainda aqueles que estão para além da nossa capacidade e imaginação. De tempos a tempos, quando uma peça de música que jamais foi escrita, ou um quadro que jamais foi pintado, ou qualquer outra coisa impossível de prever, imaginar, ou sequer descrever, tem lugar, surge um novo sentimento no mundo. E depois, pela milionésima vez na história dos sentimentos, o coração dispara e absorve o impacto.

“A história do amor” - Nicole Krauss