segunda-feira, setembro 11, 2006

A Flor de Muguet

“Era uma vez um jardim maravilhoso, cheio de grandes tílias, bétulas, carvalhos, magnólias e plátanos.
Havia nele roseirais, jardins de buxo e pomares. E ruas muito compridas, entre muros de camélias talhadas.
E havia nele uma estufa cheia de avencas onde cresciam plantas extraordinárias que tinham, atada ao pé, uma placa de metal onde o seu nome estava escrito em latim.
E havia um grande parque com plátanos altíssimos, lagos, grutas e morangos selvagens. E havia um campo com trigo e papoilas, e um pinhal onde entre mimosas e pinheiros cresciam urzes e fetos.
Ora num dos jardins de buxo havia um canteiro com gladíolos.
Os gladíolos são flores muito mundanas. E aqueles gladíolos achavam que o lugar mais chique do jardim era esse jardim de buxo onde eles moravam.
… os gladíolos gostavam muito de ser gladíolos e achavam-se superiores a quase todas as outras flores.
Diziam eles que as rosas eram flores sentimentais e fora de moda e que os cravos cheiravam a dentista. Tinham grande desprezo pelas papoilas e pelos girassóis, que são plantas selvagens. E das flores da urze e das flores de tojo do pinhal diziam que nem eram flores.
Os gladíolos admiravam secretamente as camélias, mas não tinham muita consideração por elas: achavam que elas eram esquisitas e irritantes. As camélias são muito diferentes dos gladíolos: são vagas, sonhadoras, distantes e pouco mundanas. Estão sempre semiescondidas entre as suas folhas duras e polidas. Mas os gladíolos admiravam as camélias por elas não terem perfume, pois, entre as flores, não ter perfume é uma grande originalidade.
Mas as flores que os gladíolos amavam realmente, as flores por quem os gladíolos tinham uma admiração sem limites, eram as tulipas. Com as tulipas os gladíolos chegavam a ser subservientes e punham de parte a sua vaidade.
E o único desgosto da vida dos gladíolos era não serem tulipas. Porque as tulipas são caras, raras e muito bem vestidas. O seu feitio é simples, exacto e claro. As suas cores são ricas e sumptuosas. As suas pétalas são as pétalas mais bem cortadas e mais bem armadas que há no jardim.
Mas havia uma flor que os gladíolos detestavam. Era a flor de muguet.
O muguet é uma flor escondida. É uma flor pequenina e branca e tem um perfume mais maravilhoso e mais belo do que o perfume dos nardos.
Durante o Inverno ela dorme na terra debaixo das folhas secas e desfeitas das árvores. Dorme como se tivesse morrido. Mas na Primavera as suas longas folhas verdes furam a terra e crescem durante alguns dias até terem um palmo de altura. Então muito devagar as folhas vão-se abrindo e mostram à luz maravilhada as campânulas aéreas, brancas e bailarinas da flor do muguet. E o vento da tarde toma em si o perfume do muguet, leva-o consigo, e espalha-o no jardim todo.
Então tudo no jardim estremece e as grandes tílias e os velhos carvalhos e as flores recém-nascidas e as relvas e as borboletas dizem:
- É Primavera! É Primavera!
Só os gladíolos não gostam e dizem:
- Que flor tão exibicionista! Finge que se quer esconder, finge que é simples e humilde, finge que não quer que a vejam, mas depois transforma-se em perfume e espalha-se no jardim todo!
E à noite, quando vão à estufa visitar as begónias e as orquídeas, os gladíolos fecham a porta para não sentirem o perfume da flor do muguet.”

(Excerto de “O rapaz de bronze” de Sophia de Mello Breyner Andresen)

Tal como a Flor de Muguet, indiferente a uns, querida por outros, assim foi o meu sentir desde que carinhosamente fui conduzida a transpor a porta do “Pedaços de Nós”, com a finalidade de fazer parte desta família, até ao dia de hoje. Dia em que me despeço de todos vós com um sincero aperto no peito porque o tempo que me permiti aqui permanecer foi de uma incalculável e indescritível ajuda no meu crescimento como ser humano.
Mas, chegou a hora da partida… há uma decisão tomada e um novo caminho a seguir… segui-lo-ei…
Desejo não ter usado abusivamente deste espaço, nem ter melindrado quem quer que seja com as minhas palavras. Procurei deixar sempre em cada post que publiquei um mote para reflexão e/ou discussão, e em cada comentário que fiz um pedaço de mim, o meu humilde “perfume” que me caracteriza. Desejo, também, que o “perfume” exalado não me tenha caracterizado tal como os gladíolos adjectivaram a Flor de Muguet, o meu intento foi unicamente interagir e fomentar o dinamismo do espaço.
Art, neste momento só me resta pedir-te que cortes o cordão umbilical.
Bem-haja a todos pelos valiosos momentos de partilha.
Deixo um beijo a cada um de vós e o meu sentido e profundo agradecimento.
Até sempre!

3 comentários:

Porquê? disse...

pois é.... agora é que vamos ter a prova dos nove e ver se este projecto se vai aguentar sem a tua presença!
Esta tua decisão vai "puxar" por aqueles que decidem permanecer, vai obrigar-nos a estarmos mais atentos e a sermos mais trabalhadores....
Os teus textos vão fazer muita falta, mas não temos o direito de sermos egoístas a ponto de te pedirmos que voltes atrás na tua decisão!
Sejam quais forem os motivos, espero que sejas muito feliz! e que a vida sempre te sorria!

Å®t_Øf_£övë disse...

Nefertiti,

Sabias que em França as pessoas oferecem flores de Muguets umas às outras como talismã da sorte?
Tu foste o talismã da sorte aqui do "Pedaços", porque eu questiono-me se não fosse a tua participação tão activa, talvez a determinada altura este espaço tivesse morrido.
Detesto despedidas, embora elas sejam tão triviais quanto qualquer outra coisa. Não gosto pelo simples facto de que a despedida por si só encerra... põe fim. As despedidas marcam etapas na vida, por menores que elas sejam. Gostaria, sim, de nunca precisar de dizer "tchau" ou "adeus". Gosto sempre mais de dizer um "até logo" ou "até já".
Há despedidas que nos deixam um sabor amargo. Não pelo adeus, que esse nunca é definitivo, sabemo-lo nós, mas pelas palavras que queremos dizer e que ficam presas. E tudo se resume a um instante, um instante que de repente não queríamos que acontecesse.
Sabes que aqui no "Pedaços" terás sempre as portas abertas para se um dia quiseres regressar, porque este espaço é muito teu, e tem muito de ti. Aqui terás sempre essa ténue possibilidade de retomar a tua participação, e a tua colaboração logo ali adiante...
Será que o mundo precisa de mais vírgulas e menos pontos? É necessário dividir, encerrar e classificar épocas da vida como capítulos de livros? Não sei. Mas gostaria de saber...
Como acontece com as pessoas importantes da nossa vida, e tu foste importantíssima para o sucesso do "Pedaços", teremos toda a vida para nunca nos despedirmos!

"A flor de Muguet durante o Inverno dorme na terra debaixo das folhas secas e desfeitas das árvores. Dorme como se tivesse morrido. Mas na Primavera as suas longas folhas verdes furam a terra e crescem durante alguns dias até terem um palmo de altura..."

Beijinhos.

Nefertiti disse...

Porquê e Art,
Permitam-me partilhar convosco o meu estado de espírito após ler as vossas tão afectuosas palavras.
Sou, irremediavelmente, emotiva e sinto-me como se me tivésseis arrancado o coração do peito, agarrado nele e o tivésseis aquecido entre as vossas mãos…
O aperto que sinto na garganta deixa-me incapaz de proferir seja o que for e tudo o mais que conseguisse dizer não bastaria para vos agradecer…
Acredito que o mundo necessite mais de vírgulas do que de pontos...
Tenho tentado ao longo da minha vida colocar apenas vírgulas, mas a minha necessidade, no momento, “obriga-me” no mínimo a um ponto e vírgula…
Será o “Pedaços” capaz de consentir a presença de um membro presente mas “ausente”, suportar um (;) , uma não promessa de regularidade em postagens e comentários?

Sem despedidas… meramente um “até logo”…

Beijinhos.