Mostrar mensagens com a etiqueta Ana. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Ana. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, janeiro 17, 2011

Só Hoje

"Não tens medo de te apaixonar por mim?"

"Não"

"Porquê? Porque achas que poderia dar certo?"

"Não. Porque sei que isso não vai acontecer"

"Como sabes?"

"Porque já me conheço e sei".

Porque hoje olho para ti e desejo-te. Gosto de te ter aqui deitado ao meu lado, gosto do teu cheiro, do teu toque, das coisas ousadas que me sussuras ao ouvido. Gosto de perceber que te perdes em jogos comigo. Gosto do teu corpo colado ao meu. Gosto do calor, dos sorrisos, das palavras, e desta dança desenfreada. Gosto desta noite. Mas isso é hoje. Amanha vou acordar e vou querer que vás embora. Vou querer seguir o meu dia tal como o planeei, e não vou querer muda-lo para ficar mais um pouco contigo. Provavelmente irei lembrar esta noite como uma noite bem passada, vou pensar em ti como uma boa companhia, mas não vou sentir o teu cheiro na minha pele. Porque já me conheço. Gosto desta noite mas não me estou a perder nela. E amanhã vou pensar noutras noites nas quais me perdi, e vou sentir que não é igual. Nunca é. E é por isso que sei.

quarta-feira, maio 19, 2010

Cumplicidade

Irrita-me o tom desse teu “bom dia", sempre tão cheio de certeza de que é o bastante para que eu deixe escapar um sorriso assim que o recebo, pela manhã. Irrita-me essa tua mania de continuares a querer partilhar comigo o quanto o almoço te está a saber bem, ou o quanto estás farto dessa reunião infindável. Irrita-me quando me dizes, a meio da tarde, que estás a passar naquela rua onde fica aquele restaurante onde costumávamos jantar. Irrita-me quando fazes questão de me contar como correu a consulta que tiveste por causa da unha encravada do dedo mindinho da mão direita. Irrita-me aquela mensagem que me envias a avisar que está a dar o filme que eu gosto no canal X, ou que finalmente encontraste aquele dvd que procurei durante tanto tempo.

Irrita-me que conheças de cor os meus hábitos e faças questão de mo lembrar com um ruídoso "acorda, tens de ir jantar!" lançado pelo msn, ao fim da tarde. Irrita-me quando me vens perguntar qual o melhor detergente para meter na máquina de lavar roupa e quanto tempo demora a carne a descongelar no microondas. Irrita-me quando às seis da manha me dizes que acabaste de chegar de uma noitada e vais dormir, despedindo-te com um “até amanhã” cheio de convicção de que “amanhã” nos falaremos de novo. Irrita-me quando comentas que foste lá fora dar comida aos cães e reparaste na enorme Lua Cheia que está lá em cima. E irrita-me saber que sabes que também reparei nela. Irrita-me quando completas as minhas frases, antecipas as minhas respostas e adivinhas as minhas reacções, e nem pões a hipótese de teres errado em qualquer uma delas. E irrita-me perceber que, na verdade, nunca erras em nenhuma.

Irrita-me que ainda saibas tanto de mim e faças questão de o mostrar todos os dias, ao longo do dia, e que insistas em manter os nossos hábitos, como se eles ainda fossem realmente nossos. Irrita-me esta cumplicidade que não deixas quebrar, cheio de certeza de que vamos estar sempre aqui à distancia de um “vamos lá pôr o orgulho de lado”.

E irrita-me saber que sabes que, mesmo em silêncio, concordo contigo.

domingo, agosto 23, 2009

Recomeço



Lembras-te?
Foi aqui que ficámos… e é daqui que seguimos novamente
Nada mudou… apenas o tempo passou por nós
A terra girou, a chuva caiu, o sol brilhou como sempre
O mundo seguiu o seu caminho
E eu e tu seguimos com ele
Por onde andei?
Vagueei por aí, como quem anda sem destino
Procurei-te noutros olhares, noutros sorrisos
Mas acabei aqui... no mesmo lugar
Onde sempre estiveste
Onde volto a estar
Se te ouvia?
Fingia não perceber, não querer ouvir
Fechava os olhos para não te ver
E procurava-te noutros rostos, noutras palavras
Oh que luta inútil!
Não eras tu… nunca eras tu
Voltar atrás?
Não… seguir em frente, tu e eu
Deixar a terra girar, a chuva cair e o sol brilhar novamente
E com o mundo seguirmos caminho
Mas desta vez, e mais uma vez…
Juntos.

terça-feira, junho 02, 2009

Já me tinha esquecido...


Já me tinha esquecido de como era...
Esta calmaria, esta bonança, este sossego
O acordar sem o peso de uma luta a travar
O dia que corre simples e leve
A sensação de que tudo está no devido lugar
Já me tinha esquecido deste silêncio...
Desta ausência de barulho mental
Do querer saber, entender, questionar
Ausência de ideias e palavras que se chocam
Silêncio que me deixa descansar
Já me tinha esquecido do sabor...
De disfrutar do tempo sem pressa
Ou de não querer faze-lo parar
Da certeza de tudo o que sou e quero
Da liberdade de nada esperar
Já me tinha esquecido desta voz...
Que apenas fala de dias de sol
Que nada nega, cala ou consente
E que vai cantando sorrisos á toa
Num mundo que encontra novamente
Já me tinha esquecido de como era...
... esta sensação de estar em paz.

segunda-feira, abril 13, 2009

Inversão de Marcha


Muitas vezes, seguimos por determinada estrada, fazemos kilometros e kilometros debaixo de chuvas torrenciais ou de um sol abrasador, fintamos curvas desconhecidas, desviamo-nos de obstáculos, aumentamos a velocidade e arriscamo-nos em manobras perigosas… tudo isto para chegarmos a determinado destino, convictos de que sabemos exactamente por onde vamos. De vez em quando, olhamos á nossa volta e estranhamos a paisagem.

“Estarei a ir bem?” – perguntamo-nos por momentos – “Será mesmo por aqui?”

Mas sem querermos admitir que depois de todos aqueles kilometros percorridos poderemos estar enganados, continuamos por ali, ignorando aquela sensação de que tudo é estranho… até que a certa altura nos deparamos com uma placa de nos indica um destino diferente, longe e completamente oposto daquele que procurávamos.

“Estava-se mesmo a ver! Porque é que eu não voltei para trás há mais tempo? Percorri tudo isto em vão…”

Mas será que existem mesmo caminhos percorridos em vão? Ou será que existe algum sentido em percorrer estradas que não nos levam onde queríamos ir? Serão apenas enganos ou nada acontece por acaso?

Gosto de acreditar que tudo tem um motivo, que nada é em vão, sem propósito. Gosto de acreditar que estes desvios que a vida nos proporciona têm uma razão de ser.

Mais que não seja para que, depois desta inversão de marcha, possa saber exactamente por onde não volto a seguir.

terça-feira, dezembro 30, 2008

Quero é viver!


Vou viver!
Até quando eu não sei
Que me importa o que serei
Quero é viver
Amanhã
Espero sempre um amanhã
E acredito que será
Mais um prazer
E a vida é sempre uma curiosidade
Que me desperta com a idade
Interessa-me o que está para vir
A vida em mim é sempre uma certeza
Que nasce da minha riqueza
Do meu prazer em descobrir
Encontrar, renovar, vou fugir ou repetir
Quero é viver!
(António Variações - Humanos)
Se as doze badaladas tivessem aquele poder mágico de tudo mudar em segundos, se os desejos secretamente pedidos ao sabor das doze passas devoradas fossem uma doce certeza, eu pediria, apenas e somente, para esquecer...
2008 foi um ano difícil, um ano de muitas lutas em vão, de muito desgaste emocional, de muitas perdas... e a maior de todas, para mim, fui eu mesma.
Perdi-me, deixei de me ver, de me reconhecer, deixei de saber onde estava, ausentei-me.
Procurar culpados, é inútil. Encontrar respostas, quem sabe um dia...?
Sim... pediria para esquecer.
Mas as doze badaladas não são tão mágicas como gostaríamos e, no dia seguinte, o sol nasce da mesma forma e tudo continua no mesmo lugar. Aquele passado que queremos deixar lá atrás, foi apenas ontem... e não se afogou em taças de champagne.
Pedir para esquecer é querer andar mais depressa que o próprio tempo, é inventar uma mentira que nos coloca um sorriso forçado no rosto e nos obriga a procurar soluções rápidas que, no fim, ainda farão mais estragos.
Então... não peço para esquecer.
Peço apenas para viver... quero é viver... viver para juntar os pedacinhos perdidos, viver para me encontrar e reencontrar, viver para saborear o que vier amanha, viver para dar ao tempo o tempo que for preciso para esquecer... e então viver!
Desejo a toda a família do Pedaços um 2009 cheio de vida!

sábado, janeiro 05, 2008

Concerto















Toca-me...

Escuta cada som que sai do meu corpo
Sente em cada pedaço de pele um ritmo
Faz de cada músculo uma tecla de piano
De cada nervo uma corda de guitarra
E deixa-me sentir a melodia que escolhes

Toca alto e forte, se o desejo te ataca
Toca baixinho e suave, se o carinho te move

Mas toca...

Toca-me...

Compõe a tua música no meu corpo
Escreve a tua canção dentro de mim
Inventa e reinventa a nossa orquestra
Faz desta cama o teu palco
E guarda na carne as pautas deste concerto

Toca sem pressa, se a noite for longa
Toca com alma, se o tempo deixar

Mas toca...

Toca-me...

sexta-feira, outubro 26, 2007

Pedaços de Uma História


"Há histórias que já começam com um final escrito. São obras fechadas, caminhos traçados. Não adianta querer pintá-las com as cores que mais gostamos ou desejar que o tempo possa mudar o seu rumo. Elas são assim... inalteráveis"
("Páginas ao Vento" publicado a 19 de Março de 2007)
Inalteráveis? Que sabia eu?! A vida mostrou-me que não existem finais escritos.
Como diz o meu amigo Pedro Arunca , "cada dia que passa é uma página do livro que nos compete escrever". E eu escrevi. Escolhi o tipo de papel mais macio que encontrei, peguei na lapiseira que melhor se moldava á minha mão e soltei as palavras que bem entendi. Fui escrevendo, capítulo a capítulo, ao sabor do meu desejo... a história que, um dia, julguei estar terminada. Não estava. E hoje sei...
Não foi um caminho fácil... e tantas vezes quase desisti. Quase.
"Não gosto dos quases que existem na minha vida. Não me libertam. Não me reconfortam. Pelo contrário, transformam tudo o que esteve quase... em quase nada."
( "Quase" publicado a 8 de Julho de 2007)
Corrijo. Gosto deste quase. Dizer que quase desisti, significa que não o fiz. Significa que transformei toda a minha história num desafiante talvez. Talvez tenha sido a minha teimosia, talvez a minha força, talvez até atrevimento... ou, quem sabe, talvez tenha sido apenas o saber esperar que o tempo mudasse o seu rumo.
"E que tempo é este? Amigo? Perdido? Nosso? Ou apenas meu?"
("Tempo" publicado a 12 de Dezembro de 2006)
Era o tempo que eu precisava para chegar aqui. Era o tempo que tu precisavas para saberes onde querias chegar.
Era um tempo amigo... jamais perdido... meu, teu... e sem dúvida, NOSSO.

domingo, outubro 07, 2007

Viagem


Existem lugares que marcam a nossa vida. São lugares cheios... não cheios de gente, mas cheios de nós.

São lugares que contam a nossa história, sussurram-nos lembranças, gritam os nossos segredos. Guardam em cada parede um olhar, em cada canto uma lágrima, em cada objecto um sorriso. São lugares que nos queimam por dentro e nos roubam a alma por instantes.
Fazem-nos viajar a recantos de nós que julgávamos não mais existirem. Ressuscitam emoções que um dia quisemos deixar morrer.
Voltei a um desses lugares... onde tantas vezes me perdi de mim mesma, e onde tantas outras me encontrei. Onde o tempo parava para me ouvir gritar sentimentos em silêncio... embalados por uma música cuja letra contava uma história igual á minha.
Voltei e revi-me... revi-me em cada canto, em cada objecto, em cada palavra. Senti na pele o calor das noites sem fim e na boca o doce amargo sabor de cada momento ali vivido.

Saí de mim mesma e deixei-me ir... como quem vai em busca de uma qualquer resposta, supostamente deixada ao acaso num dos cantos daquele lugar. Deixei-me novamente embalar pelas velhas musicas que ainda contam a mesma história. Uma história que ainda é a minha.

Esqueci quem sou e procurei quem fui. Viajei por mim mesma e reencontrei caminhos já esquecidos. Caminhos que ficaram ali guardados, sem nunca levarem a lugar nenhum...
Chegada a hora de ir embora, voltei a mim. Despedi-me de quem fui e abracei quem sou. Deixei que cada refrão me contasse uma história diferente daquela que foi a minha... talvez a que ainda quero viver.

Devolvi cada emoção a cada parede, a cada canto, a cada objecto ... e, lançando-lhes um último olhar á saída, pedi-lhes baixinho que continuassem a guardar as minhas lembranças, para nelas seguir viagem sempre que me apetecer ali voltar.

domingo, julho 08, 2007

Quase...


"Pior que a convicção de um não
ou a incerteza de um talvez
é a desilusão de um "quase"
é o quase que me incomoda, que me entristece,
que me mata trazendo tudo o que poderia ter sido e não foi.
Quem quase ganhou, ainda joga
Quem quase passou, ainda estuda
Quem quase morreu, está vivo
Quem quase amou, nunca amou"
(Luís Fernando Veríssimo)
Muitas vezes penso nas coisas que quase fiz, nas palavras que quase disse, nos lugares onde quase cheguei, nas pessoas que quase conheci, nos desejos que quase realizei, nos momentos que quase vivi.
Não penso nelas como uma perda... na verdade, nunca cheguei a tê-las. Estive perto. Estive quase.
Nunca ninguém me disse que não as podia ter. Nunca ninguém me disse que não as merecia. Apenas me desencontrei de umas e cheguei tarde a outras.

Consigo lidar bem com as perdas definitivas. Sou Escorpião e, tal como dizem os astros, morro e renasço facilmente. Supero o que não é possível. Esqueço o que não está ao meu alcance.
Um não doi, magoa, fere... mas liberta-me e faz-me querer virar a página. Consegue ter em mim um poder regenerador, que me faz querer seguir em frente, mesmo que noutra direcção.

Já o talvez desafia-me, atiça-me, motiva-me. Saber que talvez possa ir por ali, ou por acolá... saber que talvez possa chegar onde quero... que talvez possa ser, sentir, viver o que desejo... deixa-me inquieta, ansiosa e desperta em mim uma teimosia sem limites.
O talvez incomoda, enerva, fervilha... mas tem um gosto doce de possibilidade, que só perderá ao transformar-se num não.

Mas o quase... deixa uma sensação de vazio. Vazio de algo que esteve próximo, mas não chegou a estar.
É um talvez que deixou de o ser, mas que nunca chegou a ser não. É um livro que perdi, sem ter acabado de ler.
Dizer que se esteve "quase a.." poderá parecer reconfortante. Afinal, significa que tentámos, que fizemos alguma coisa e que quase conseguimos. Não foi uma derrota imediata. Tivemos possibilidade e estivemos quase lá.
Quase... mas não chegámos a estar.

Não gosto dos quases que existem na minha vida. Não me libertam. Não me reconfortam. Pelo contrário, transformam tudo o que esteve quase... em quase nada.

quarta-feira, abril 18, 2007

Paixão


Bebíamos Green Sands e ouvíamos o Angie. Tínhamos no sangue a rebeldia da idade.
Queríamos abraçar o tempo e cerrávamos as mãos para agarrar a vida... a vida que sempre nos parecia correr depressa demais.
Fazíamos dos portões do liceu a nossa porta para o Mundo... um mundo só nosso, onde podíamos ser quem quiséssemos, onde éramos livres.
Eu era aquela menina franzina, de caracóis longos e olhar sonhador. Tu esbanjavas sorrisos marotos numa pose à la Don Juan.
Eu era um nascer do dia calmo e sereno. Tu eras um pôr-do-sol que anuncia uma noite quente de Verão.
Eu desejava alcançar as estrelas. Tu querias ser o céu!
Éramos dois, mas éramos um só.
Soltavas palavras ao som da tua viola. Eu soltava sonhos ao som das tuas palavras.
Trocávamos olhares cúmplices em silêncios prolongados.
Éramos tão diferentes. Éramos tão iguais!
Presos por uma paixão adolescente, livres na certeza que seria eterna.
Gravámos os nossos nomes no livro das memórias e guardámos momentos no baú da saudade.
Jurámos nunca esquecer aquela paixão.

Hoje ouvi o "Angie"... e lembrei-me.


E tu, ainda te lembras?

segunda-feira, março 19, 2007

Páginas ao vento


Há histórias que já começam com um final escrito. São obras fechadas, caminhos traçados.
Não adianta querer pintá-las com as cores que mais gostamos ou desejar que o tempo possa mudar o seu rumo. Elas são assim mesmo... inalteráveis. Entramos numa dessas histórias convictos de que passaremos por ela com a leveza necessária... a leveza e a serenidade de a considerarmos apenas um bom momento, sem que nada se altere em nós.
Mas nós não somos inalteráveis como são algumas histórias que vivemos. Somos carne, pele, cheiro, toque, sentimento... não somos um livro fechado, somos páginas ao vento...
Quando damos por isso, a história já faz parte de nós. Já vivemos e respiramos aquele enredo. Já temos cravadas na pele as marcas de um argumento que não é o nosso. E sabemos disso. E sentimos cada momento como se fosse o último. Porque sabemos que vai haver um cair do pano. E doi.

Talvez quando deixar de doer, consiga dizer que foi melhor assim. Talvez quando o vazio deixar de ser tão vazio, consiga olhar para tudo isto e sorrir. Talvez quando deixar de sentir, consiga entender.

E quando a saudade apertar?

Talvez chore um bocadinho... e talvez passe.

sexta-feira, janeiro 19, 2007

Perco-me

Morro... renasço... morro novamente... e volto a renascer.

São dias, horas, instantes... são emoções á flor de mim.
Abanam-me, ferem-me, acordam-me.
Páro e morro.... deixo morrer simplesmente.
Fecho as portas, tranco-me dentro de mim mesma.
Sinto, penso, procuro-me.
Não me encontro, não me reconheço.

Perdi-me.

Então rasgo, parto, choro.
Renasço no vazio, viro a página.
Sinto medo, sinto alívio... sinto simplesmente.
Fecho os olhos, abro as portas, levanto-me.
Acalmo-me e sigo em frente.
Chamo por mim, rebusco-me, procuro-me.

Acordo... e encontro-me.

Luto, fujo, esqueço, não penso.
Morre o sonho, nasce a saudade.
Aperto no peito... deixo doer simplesmente.
Espero por mim, fujo de mim, reinvento-me.
Sinto-me perto, sinto-me forte, aguento.
Suspiro, respiro, sigo caminho.

Olho-te... e perco-me novamente.

terça-feira, dezembro 12, 2006

Tempo

Tempo...
Ás vezes um amigo
Companheiro
Cúmplice...
...quando parece abrandar o seu próprio tempo
no tempo das coisas boas...
...quando faz o tempo de um bom momento
parecer um tempo sem hora para acabar...
...quando me dá tempo para fazer de um instante
uma eternidade no tempo...
Outras vezes inimigo
Inconstante
Assustador...
...quando se prolonga num tempo
que ninguem sabe a que tempo vai dar...
...quando me arrasta por um tempo
sem dizer quanto tempo tem para durar...
...quando me deixa perdida algum tempo
de um tempo onde gostaria de estar...
E que Tempo é este?
Amigo?
Perdido?
Nosso?
Ou apenas meu?

quarta-feira, novembro 22, 2006

Lembro-me...

Lembro-me do teu rosto... ainda com a mesma expressão daquela jovem de vinte e poucos anos que um dia eu vi ir embora. É assim que me lembro de ti. Não te conheci de outra forma. Não te vi envelhecer. Na verdade, nem sei quem tu és. Não conheço a tua história, as tuas alegrias, as tuas dores. Não sei o que te faz rir ou chorar, não conheço os teus desejos, vontades ou caprichos. Não conheço a tua essência.
Sei que o tempo passou por ti e por mim... o mesmo tempo que criou esta distância entre nós e fez com que os nossos caminhos nunca mais se cruzassem. Tambem não sabes quem eu sou. Mal conheceste a menina e hoje... definitivamente não conheces a mulher. Não me viste crescer, não me levaste á escola pela mão, não me repreendeste pelos disparates que fiz, nem tão pouco estiveste lá quando me portei bem. Nunca te falei das minhas amizades, dos meus sonhos, dos meus medos. Não foi a ti que falei das minhas primeiras paixões, nem te contei sobre o meu primeiro beijo. Não foi nos teus braços que me refugiei sempre que me senti triste ou perdida, nem foi contigo que ri das coisas felizes.
Talvez me lembre da tua voz... mas não me lembro de te ouvir falar. Nem sei o que dizes, o que pensas, o que sentes. Nunca encostei a cabeça no teu colo para ouvir os teus conselhos, nem nunca te ouvi dizer " Vem cá...está tudo bem ", seguido de um beijo carinhosamente dado na minha face. Aliás, nem sei a que sabe um beijo teu.
Penso poucas vezes em ti, confesso. Sei que existes, porque eu existo. Sei que foste família um dia, que me puseste no mundo. Deste-me um corpo e um nome. Mas não me deste a mão pelos caminhos da vida. Nunca nos sentámos á mesa para falar de coisas fúteis, nunca tivemos conversas de mulher para mulher. Nem mesmo conheço essa mulher que és tu. Nem tu sabes quem eu sou. Não tenho muito para lembrar, nem tenho do que sentir falta ou saudade. Nunca ocupaste um espaço e por isso... não deixaste um vazio.
Talvez um dia passe por ti na rua. Talvez te reconheça. Talvez tu te lembres de mim. Talvez até possamos trocar algumas palavras... e tentar encontrar nelas alguma coisa que faça sentido. Ou não. Talvez nesse dia poderemos sentir alguma coisa, alguma emoção, alguma saudade do que nunca tivemos. Ou provavelmente não sentiremos nada.
Lembro-me do teu rosto... lembro-me da tua voz... mas não me lembro e nem sei o que é chamar-te "Mãe".

terça-feira, novembro 07, 2006

Lamento...

Não é fácil deitar fora um livro
que nunca chegou a ser lido
arrancar cada lembrança
como se fosse uma página a rasgar
onde nunca se escreveu
onde as palavras nunca se expressaram
onde as frases nunca chegaram a falar

Deixar para trás uma história
que nunca chegou a ser contada
onde ninguem foi rei ou princesa
nem teve um final feliz ou infeliz
história sem cor, sem cenário
sem cheiro e sem som
que não tem como deixar raíz

Perder uma guerra que nunca houve
onde ninguem se vestiu para lutar
onde não há aliado ou inimigo
sem bandeira a defender
guerra sem nome, sem batalha
armas que nunca dispararam
vitória que não chegou a ser

Tirar do coração uma música
que não chegou a ser tocada
sem acorde, sem pauta
sem verso ou sentido
melodia que ninguem ouviu
concerto adiado no tempo
cantor num palco esquecido

Esquecer o que nunca foi feito
relembrar o que nunca foi dito
deixar para trás o vazio
que ficou parado no tempo
onde o amanha não chegou
e onde se encontra um coração
que só sabe dizer "lamento"

(por Ana)