domingo, julho 16, 2006

... um pedaço de vida...

"Se, por um instante, Deus se esquecesse de que sou uma marioneta de trapo e me presenteasse com um pedaço de vida, possivelmente não diria tudo o que penso, mas, certamente, pensaria tudo o que digo. Daria valor às coisas, não pelo que valem, mas pelo que significam. Dormiria pouco, sonharia mais, pois sei que a cada minuto que fechamos os olhos, perdemos sessenta segundos de luz. Andaria quando os demais parassem, acordaria quando os outros dormem.

Escutaria quando os outros falassem e gozaria um bom sorvete de chocolate. Se Deus me presenteasse com um pedaço de vida, vestiria simplesmente, me jogaria de bruços no solo, deixando a descoberto não apenas meu corpo, como minha alma.
Deus meu, se eu tivesse um coração, escreveria meu ódio sobre o gelo e esperaria que o sol saísse. Pintaria com um sonho de Van Gogh sobre estrelas um poema de Mário Benedetti e uma canção de Serrat seria a serenata que ofereceria à Lua. Regaria as rosas com minhas lágrimas para sentir a dor dos espinhos e o encarnado beijo de suas pétalas.

Deus meu, se eu tivesse um pedaço de vida... Não deixaria passar um só dia sem dizer às gentes - te amo, te amo. Convenceria cada mulher e cada homem que são os meus favoritos e viveria enamorado do amor. Aos homens, lhes provaria como estão enganados ao pensar que deixam de se apaixonar quando envelhecem, sem saber que envelhecem quando deixam de se apaixonar. A uma criança, lhe daria asas, mas deixaria que aprendesse a voar sozinha. Aos velhos ensinaria que a morte não chega com a velhice, mas com o esquecimento.

Tantas coisas aprendi com vocês, os homens... Aprendi que todo mundo quer viver no cimo da montanha, sem saber que a verdadeira felicidade está na forma de subir a escarpa. Aprendi que quando um recém-nascido aperta com sua pequena mão pela primeira vez o dedo de seu pai, o tem prisioneiro para sempre. Aprendi que um homem só tem o direito de olhar um outro de cima para baixo para ajudá-lo a levantar-se. São tantas as coisas que pude aprender com vocês, mas, finalmente, não poderão servir muito porque quando me olharem dentro dessa maleta, infelizmente estarei morrendo.

É necessário abrir os olhos e perceber que as coisas boas estão dentro de nós, onde os sentimentos não precisam de motivos nem os desejos de razão. O importante é aproveitar o momento e aprender sua duração, pois a vida está nos olhos de quem sabe ver."

(Gabriel Garcia Marquez)

4 comentários:

Nefertiti disse...

Gabriel García Márquez, nascido em 1928, na Colômbia, é mundialmente considerado um dos mais relevantes expoentes da literatura norte-americana. Obteve o Prémio Nobel da Literatura em 1982.
De entre as suas muitas obras, destaco como a obra que mais me tocou e que considero um marco na sua carreira “O Amor nos Tempos de Cólera”, história de uma paixão infeliz. Descreve a epopeia sentimental de um amante repudiado que durante toda a sua longa existência, desde o furioso incêndio juvenil ao crepuscular fogo da velhice, manteve uma inquebrantável fidelidade à sua antiga noiva. Uma obra de construção perfeita, em que do principio ao fim se respira a atmosfera de magia que serve de alimento a todas as histórias de amor.
Gabriel Gárcia Márquez, inegavelmente um dos meus escritores preferidos.
Um grande pensador, que com a sua imensa panóplia de vivências, nos proporciona importantes reflexões sobre os mais variados temas do nosso quotidiano e meandros do ser humano.
A fazer jus ao que acabo de referir, é este “pequeno” trecho que intitulei de “… um pedaço de vida…”, que já é tão nosso conhecido, mas que nunca é demais reler e reflectir sobre o seu conteúdo.

Å®t_Øf_£övë disse...

Nefertiti,
Gostei de ler este texto que nos permite pensar em diversas coisas.

"Escrever o ódio sobre o gelo", não me parece uma boa opção. Pode tornar-se numa mistura explosiva, mas também é verdade que por muito que se tente por vezes é dificil de evitar. Para mim o gelo só devia servir mesmo para refrescar bebidas como o Gin, Whisky, Vodka, etc...

"Todo o mundo quer viver no cimo da montanha", muitas vezes para procurar a verdadeira felicidade, outras vezes talvez para fugir de si mesmo. A verdadeira felicidade pode estar na forma de subir... ou descer a escarpa... mas seja o que for que se faça, que se faça com convicção, sem medos, nem receios, nem orgulhos.

Também gostei da frase que diz que os sentimentos não precisam de motivos nem razão... ela não poderia ser mais verdadeira.

Beijinhos.

Junior disse...

simplesmente adorei o teu texto...tb eu adoro o escritor em questão e foi bom reler aqui outra vez...mais uma vez me revi em alguns excertos deste texto,especialmente na frase em que diz" ...não diria tudo o que penso, mas certamente pensaria tudo o que digo..."
Sem palvaras para tamanha sabedoria.

Bjinhos

Dulcineia disse...

Já conhecia,uma parte do texto...Gabriel Garcia Marquez é um dos meus escritores de eleição.Gostei desta tua lembrança.Gostar de alguém..aparentemente sem motivo é um bom pedaço de vida.Beijocas.