terça-feira, novembro 07, 2006

Lamento...

Não é fácil deitar fora um livro
que nunca chegou a ser lido
arrancar cada lembrança
como se fosse uma página a rasgar
onde nunca se escreveu
onde as palavras nunca se expressaram
onde as frases nunca chegaram a falar

Deixar para trás uma história
que nunca chegou a ser contada
onde ninguem foi rei ou princesa
nem teve um final feliz ou infeliz
história sem cor, sem cenário
sem cheiro e sem som
que não tem como deixar raíz

Perder uma guerra que nunca houve
onde ninguem se vestiu para lutar
onde não há aliado ou inimigo
sem bandeira a defender
guerra sem nome, sem batalha
armas que nunca dispararam
vitória que não chegou a ser

Tirar do coração uma música
que não chegou a ser tocada
sem acorde, sem pauta
sem verso ou sentido
melodia que ninguem ouviu
concerto adiado no tempo
cantor num palco esquecido

Esquecer o que nunca foi feito
relembrar o que nunca foi dito
deixar para trás o vazio
que ficou parado no tempo
onde o amanha não chegou
e onde se encontra um coração
que só sabe dizer "lamento"

(por Ana)

4 comentários:

Å®t_Øf_£övë disse...

Ana,
É bom ver-te por aqui a partilhares os teus "Pedaços". Espero que este seja o primeiro de muitos, e que te possas sentir bem por cá, porque a partir de agora esta casa também é tua, tanto como de qualquer um de nós.

Ao ler este teu primeiro "Pedaço", fez-me lembrar que muitas vezes é ao lermos páginas alheias à nossa história, que acabamos por aprender pedaços de nós em palavras imaginadas. Nós pudemos controlar a nossa vontade, mas não pudemos controlar o que nunca aconteceu, mesmo que seja possível tentar prever, e tentar pôr através dos nossos dedos, e dos nossos lábios em palavras. Muitas vezes deitamos a vida fora por um momento só... por um momento que nunca aconteceu. Lançamos tudo à eternidade.
Costuma-se ouvir dizer - acabou - se acabou é porque começou, mas será verdade que só acaba aquilo que começou?
Eu penso que não...
A vida não começa, a vida nasce, cresce, amadurece e morre. A vida não acaba, ela morre. A vida não começa nem acaba.
Um livro é que começa... uma história é que começa... uma guerra é que começa...
O amor é como a vida, também não começa nem acaba...
Se dizemos que o amor acabou, é porque nunca nasceu. E se dizemos que o amor começou, é porque nunca aconteceu.
O amor só é amor, quando nasce e morre. E quando se encontra um coração que só sabe dizer "lamento", pelo menos que seja por aquilo que aconteceu, e não por aquilo que nunca aconteceu.

Beijinhos.

Nefertiti disse...

Com a devida permissão do nosso querido Art, faço minhas as suas palavras.
Bem-vinda sejas, Ana, à família “Pedaços de Nós...”!
Há já algum tempo que dela faço parte, tenho contribuído no seu crescimento na medida que me é possível, umas vezes mais presente, outras mais ausente, mas sempre com o compromisso assumido desde o primeiro dia em que me foi aberta a porta e fui convidada a transpô-la. Aqui tenho opinado e deixado um pouco de mim em cada comentário, em cada texto. A forma natural com que o faço, o bem-estar que sinto deve-se ao carinho, à atenção com que fui acolhida e sou escutada.
É meu desejo que, tal como eu, aqui, assim te sintas. Desejo que ao leres estas minhas palavras sintas nelas também o meu afecto e que nelas tenha ficado expresso o meu imenso contentamento pelo “sangue novo e quente” (o teu) que se junta à família “Pedaços”.
Crê que fiquei positivamente surpreendida com o magnífico texto com que estreaste a tua presença neste espaço.
Deleita-me ter a possibilidade de ler um texto bem escrito, bem estruturado, cuidado... denota zelo por parte de quem o escreve... o cuidado com a nossa bela língua e o respeito por quem lê. Para além do que acabo de referir, conseguiste colocar nas palavras sentimentos, os teus, e transmiti-los...
Desejo que partilhes e nos presenteies com o teu dom, muitas e muitas vezes.
Perdoa-me só agora te dar as boas-vindas... nem sempre a vida corre como pensamos ou esperamos... nem sempre os acontecimentos alheios à nossa vontade, nos permitem estar presentes quando e quanto desejaríamos...
Ana, querida, um beijinho.

Litinha disse...

Ana,
Texto ou poema, escolho apelidar o que li de Poema, pois que o que fizeste com as palavras e os teus sentimentos, foi poesia.
Poesia é a arte de fazer versos, de transformar as palavras, impregná-las de sensações, na maioria das vezes, de carga emocional muito forte de inspiração em vivências do próprio autor/escritor.
Poesia é, também, a arte de despertar sentimentos… e despontaste sentimentos em mim… fizeste-me reflectir sobre a minha vida… olhar o passado e reafirmar a conclusão a que já havia chegado… concluo que “li” e “escrevi” muitos livros…e com todos aprendi… e continuo a “escrever”… com vontade de continuar…
“Não é fácil deitar fora um livro…”, concordo! Mas, não é obrigatório que se deite fora o livro…mesmo que a história não seja a que esperávamos ou sonhávamos que fosse, podemos, sempre, dela apreender algo que nos faça crescer como seres humanos… quando muito, devemos ter a coragem, a força de vontade de fechar esse livro e guardá-lo… de perceber que é chegada a hora de o fechar e abrir o nosso coração e espírito a novas “leituras”… deitar fora, não… seria quase como que renunciar a uma parte de nós…
Se nesse livro existiu um coração que soube dizer “lamento”, então é porque esse livro foi escrito com muito sentimento e esse coração assumiu o que disse e deixou por dizer, o que fez e o que deixou por fazer… e o mais importante, se proferiu “lamento”, houve consciência dos seus actos…
Um beijo e bem-vinda à família “Pedaços”.

Ana disse...

Art, Nefertiti, Litinha:

Agradeço do fundo do coração as palavras que me deixaram aqui. De facto, é muito bom sentirmo-nos bem recebidos numa nova morada e saber que, de alguma forma, contribuimos para o bem estar de quem nos recebe.
Espero tê-lo conseguido com este meu primeiro "pedaço". Se é texto, se é poema... não pensei nisso quando o escrevi. Apenas deixei as palavras soltarem-se com a mesma intensidade do sentimento que guardava. E é assim que sou... movida a emoções, paixões... muitas vezes tentanto encontrar o lado racional das coisas, mas raramente conseguindo fazer dele o meu caminho. Procuro sempre ouvir o que o coração me diz, decifrar o que os meus sentidos apuram, deixar transparecer o que me vai na alma... e não consigo ser de outra forma.
É assim que sempre estarei aqui convosco... de coração aberto, com as emoções á flor da pele e deixando as palavras soltarem-se com a leveza do momento.

Obrigada,

Beijinho