domingo, novembro 05, 2006

Memórias do ontem...

Penso em ti hoje, como se o hoje fosse o ontem... O ontem de algum tempo atrás, de um tempo passado, mas presente...
Mantenho-te vivo na minha memória, revivendo o tempo que nos pertenceu, os momentos que nos permitimos compartir, os ápices que o destino reservou para nós...
Ontem... ontem descansaste nos meus braços, enrolado em mim, entrelaçado nas minhas pernas partilhando o mesmo ensejo, o mesmo desejo...
Ontem... ontem deslizaste nos meus lençóis procurando-me dentro de mim, como se fosse possível encontrar ainda mais um pouco da minha alma que desconhecesses e não te pertencesse...
Ontem preencheste todos os lugares, cantos e recantos do meu corpo que guardo, no silêncio dos meus desejos, para ti...
Ontem... brincámos como duas crianças... rimos porque sim, porque estarmos juntos, sentirmos o calor, a presença um do outro, faz-nos sorrir, rir do tudo e do nada... porque partilharmos o mesmo minuto das nossas vidas separadas, nos completa, nos preenche...
Hoje... hoje na ânsia de ainda te sentir meu e em mim, nego a tua ausência... nego a insana firmeza do meu olhar procurando-te no escuro da minha alma... pois que hoje não mais os meus olhos alcançam os teus... estes olhos com sorrisos presos nas íris chuvosas... olhos de um mundo perdido para mim...
Hoje... hoje nego a intensidade com que ainda sinto, meramente na memória, os teus lábios a cobrir o meus... a tua língua dançando com a minha... as nossas mãos enlouquecidas pelo prazer de nos sentirmos, percorrendo os nossos corpos... os gemidos impossíveis de serem contidos...
Encosto-me ao espelho do ontem, ofegante, e sei, sei dolorosamente que do outro lado estás tu, encostado, cansado, perdido nos teus medos particulares, os teus monstros, os teus ossos, o teu livro, quase sinto a tua respiração. Grito o teu nome, grito, grito até à loucura, quero-te presente, quero-te aqui... Quebro o espelho. Estilhaços por toda a parte... Estilhaços de mim... Desespero de te querer fora de mim e simultaneamente dentro.
Teço e abraço o silêncio que deixaste com a tua partida... Trago-o em mim... Perfumo-o com a minha memória... Embriago-me dele, como se de um pedaço de ti se tratasse...
Onde estás agora, em todos os momentos em que sufoco pela impossibilidade de te ter, fazer meu e fazer-me tua?
Neste espaço limitado que é o meu ser, a minha alma contorce-se na angústia de te sentir apenas no ontem...
Hoje mais que todos os outros dias...
Hoje fico sozinha a afogar-me na minha fraqueza que és tu...

3 comentários:

Litinha disse...

Nefertiti,

Viver nas e das memórias do ontem, impede de caminhar na direcção do amanhã...


"Memória"

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.

(Carlos Drummond de Andrade)

Ana disse...

Nefertiti,

A luta entre o que já não queremos sentir e o que ainda se sente, será sempre uma luta em vão. Quando as memórias permanecem vivas e, mais do que simples imagens relembradas, ainda guardamos nelas o cheiro, o sabor de momentos partilhados, não há vontade nem razão que as faça morrer. Só o tempo. E o tempo, para quem sente saudade, poderá ser eterno.

Å®t_Øf_£övë disse...

Nefertiti,
Eu diria para procurares amar hoje. Para procurares sorrir hoje. Para procurares chorar hoje, porque o importante é viver o hoje, uma vez que o ontem já passou, e o amanhã pode não vir. Mas a verdade é que muitas vezes amar é esperar pelo passado, que muitas vezes se perde sem se saber bem porquê.
Beijinhos.