segunda-feira, outubro 15, 2007

Like a dream

Não era para ser, mas foi...

Não era para sentir, mas sentiu...

Não era para acontecer, mas aconteceu...

Angústia? Alguma... Receio? Muito... Felicidade? Sempre...

Retroceder? Impossível...

Avançar? Talvez...

Insegurança? Um pouco...


A noite brilhava por entre o escuro. As memórias que não identificava misturavam-se nas recordações sobrantes. Ora se encolhia de medo, ora sorria deliciada. Virava-se, revirava-se, revoltava-se... contorcia-se... alucinada...

Olhou-o. Sem encontrar o seu corpo, viu-o, sentiu-o, ouviu-o, sorriu... sem ansia, sem medos, sem certezas nem interrogações, tranquilizou-se a si mesma num sono prolongado como um beijo demorado. O dele.

sexta-feira, outubro 12, 2007

Consumo

Recebi a conta da EDP. Digo já, não sou daqueles que telefona a dizer a quanto vai o contador da minha casa, e sou sincero, prefiro nem saber.
E acho que deve ser assim, não quero saber o quanto gasto de energia.
Se eu, um dia, tivesse um contador no meu corpo, podia controlar perfeitamente os meus consumos, provavelmente até entrar numa de poupança... mas não, não quero, não faço leituras, não as dou a ninguém, não sei o quanto estou a gastar, nem quanto vou pagar no final.
Nas emoções sou mesmo um gastador, e sabem porquê? Vivo um dia de cada vez, e acreditem que vivo mesmo.

"Ninguém é tão velho que não possa viver mais um ano,
Nem ninguém é tão novo que não possa morrer já"

quinta-feira, outubro 11, 2007

Um Sorriso / Uma Viagem pela Alma

Liberta-te…
Passeia agora bem no fundo de tua alma, sente a vibração que o amor te entrega. Vagueia chafurdando nos sentidos, percorre a fundo a estrada que te leva até ao Nirvana…

Liberta-te…

Solta bem alto esse grito da alma, esse teu inconfundível sorriso, és livre agora, és cada vez mais apenas tu…

Vagueia…

Olha para o céu abrindo os braços, sente o conforto que a vida te traz, o calor que o sol te oferece…

Olha para mim e escuta, apenas escuta…

Por vezes a nossa vida mais parece um deserto melancólico, percorrido entre as areias de tristeza e monotonia por nós criadas, por outros criadas ou simplesmente criadas ao acaso do vento. Mais parece não haver saída, entre a espada e o frio da parede um dia acabamos por acordar, porquê? Fiz algo de mal? A vida é mesmo assim e pronto! Nada mais há por explicar. Até que um dia vemos um sorriso! Um simples e profundo sorriso, um olhar, um olhar profundo que entra bem no fundo de nós e vasculha o nosso coração e a nossa alma. É então que acabamos por descobrir que afinal aquelas melancólicas areias que percorremos no nosso próprio deserto, existe afinal um brilho bonito, um arco-íris de cores que nos fazem sorrir sonhar voar, e é mesmo nesse preciso momento que sentimos que afinal naquele deserto existe uma brisa fresca que nos refresca a alma, e se continuarmos a procurar quase de certeza que vamos encontrar uma queda de água que nos vai matar a sede e nos vai fazer cantar e voltar a sorrir, e quando menos esperarmos vamos começar a ver no horizonte um raio de luz a nascer, um raio de luz que nos rasga a tristeza, uma luz tão forte que atravessa as areias e as faz brilhar, a água passa então a luzir pequenas gotinhas de cores maravilhosas, e lá no fundo mas bem no fundo começamos a ouvir a musica que a brisa nos traz…

Ao som de "Shine On You Crazy Diamond" dos Pink Floyd

segunda-feira, outubro 08, 2007

O meu "Pedaço" # 15

Não me adianta procurar, porque não existem livros para homens que sejam pais... nem na secção de ciências ocultas.
Depois do bebé nascer deixamos de fazer parte da equação natural.
Não se trata de uma conspiração. As mulheres até tentam manter os homens dentro da equação. O problema é que nós não sabemos como nos manter maternos.
Seremos homens capazes de inventar um complexo químico qualquer que nos permita manter integrados neste acto solene de paternidade sem bocejar?
Porque raio ninguém até hoje criou um código de conduta que discipline a actuação do homem numa família?
Talvez seja porque o pai é apenas o selvagem num meio que exige harmonia e paz.
Eu disse... apenas?
Isso já me parece imenso...

domingo, outubro 07, 2007

Viagem


Existem lugares que marcam a nossa vida. São lugares cheios... não cheios de gente, mas cheios de nós.

São lugares que contam a nossa história, sussurram-nos lembranças, gritam os nossos segredos. Guardam em cada parede um olhar, em cada canto uma lágrima, em cada objecto um sorriso. São lugares que nos queimam por dentro e nos roubam a alma por instantes.
Fazem-nos viajar a recantos de nós que julgávamos não mais existirem. Ressuscitam emoções que um dia quisemos deixar morrer.
Voltei a um desses lugares... onde tantas vezes me perdi de mim mesma, e onde tantas outras me encontrei. Onde o tempo parava para me ouvir gritar sentimentos em silêncio... embalados por uma música cuja letra contava uma história igual á minha.
Voltei e revi-me... revi-me em cada canto, em cada objecto, em cada palavra. Senti na pele o calor das noites sem fim e na boca o doce amargo sabor de cada momento ali vivido.

Saí de mim mesma e deixei-me ir... como quem vai em busca de uma qualquer resposta, supostamente deixada ao acaso num dos cantos daquele lugar. Deixei-me novamente embalar pelas velhas musicas que ainda contam a mesma história. Uma história que ainda é a minha.

Esqueci quem sou e procurei quem fui. Viajei por mim mesma e reencontrei caminhos já esquecidos. Caminhos que ficaram ali guardados, sem nunca levarem a lugar nenhum...
Chegada a hora de ir embora, voltei a mim. Despedi-me de quem fui e abracei quem sou. Deixei que cada refrão me contasse uma história diferente daquela que foi a minha... talvez a que ainda quero viver.

Devolvi cada emoção a cada parede, a cada canto, a cada objecto ... e, lançando-lhes um último olhar á saída, pedi-lhes baixinho que continuassem a guardar as minhas lembranças, para nelas seguir viagem sempre que me apetecer ali voltar.

terça-feira, setembro 25, 2007

Perdi-me

Fiz-me cúmplice do doce frio da espada que me encosta, a esta parede chamada vida.

Habituei o corpo ao fracasso, ao gosto ternurento do despreso.

Perdi-me nos caminhos do não… do talvez um dia. Escrevi com lágrimas e traições a infame estória de minha vida.

Perdi, chorei, sofri, deixei-me cair nos caminhos da descrença da pouca vontade de sorrir…

Perdi-me…

Mas não morri…

Ainda não morri…

domingo, setembro 23, 2007

De Visitante a Participante

O “Pedaços de Nós” fez 2 anos de existência, razão pela qual deixo os meus parabéns a todos vós. Não é fácil manter um espaço em que a diversidade de comunicação é grande. Assim sendo, se ainda existe é porque coabitam moderação e coesão dentro desta “família”.

Fui pois convidada pelo Art a fazer parte dela também. Aceitei com o maior carinho por várias razões.
A primeira, prende-se com o facto de o “conhecer” desde que iniciei a minha caminhada no mundo da blogosfera. Umas vezes com mais contacto, outras menos, mas são as circunstâncias de vida que nos levam a tal. O que interessa no entanto, é o facto de ainda permanecer o elo de ligação.
Em segundo lugar porque já vos leio há algum tempo, e sempre admirei o respeito que é dedicado às mais variadas posturas encontradas neste núcleo. Associo ainda a grande diversidade de informação, se assim o quisermos designar, proporcionadora de uma amplitude na qual pode haver identificação ou não. No entanto, tal como é salientado, a liberdade impera.

Pela minha parte, considero que embora seres sociais, somos acima de tudo unos. Logo, a resposta que cada um de nós dá a um mesmo estímulo tende a variar. E é desse grande leque de respostas que o conhecimento, a aprendizagem, a discussão salutar, podem aparecer com a consequente evolução, seja ela em termos latos ou restritos.
É portanto com esta forma de estar que deixarei aqui a minha contribuição para o crescimento desta família que, apesar de todas as vicissitudes, ainda se encontra reunida após 2 anos de vida.

A foto que usei neste post é o que considero a minha identificação no meio em que todos nós nos encontramos. É possível que já me tenham visto por aí…
O meu MUITO OBRIGADO a todos e um agradecimento especial ao Art.
Obrigado Art, pela oportunidade que me facultaste!

PS: Aparece como identificação as letras Alx. É somente a forma que usei para registo visto que o nome que utilizo é Alexandra.

terça-feira, setembro 18, 2007

2º Aniversário

Parabéns ao "Pedaços de Nós"

Parabéns a todos nós...



Porquê o Cubo Mágico?
Provavelmente porque representa um pouco de cada um de nós aqui no "Pedaços"...
Umas vezes com todas as nossas "cores" em sintonia... outras vezes com as "cores" completamente desligadas umas das outras...
O Cubo Mágico representa um pouco o que é viver... existir... um verdadeiro quebra-cabeças, em que tentamos arranjar maneira de encaixar de forma perfeita todos os pormenores e objectivos da nossa vida.
Na vida, como para resolver o Cubo Mágico, há que ter a capacidade de virar e revirar as peças até obtermos as suas seis faces cada uma com a sua cor. Mas para isso há que conhecer bem o cubo, afeiçoá-lo, alimentá-lo, e dar-lhe um pouco de colinho e carinho, porque os cubos são muito sensíveis, tal como a vida... tal como o "Pedaços de Nós".

sexta-feira, setembro 07, 2007

O Meu Olhar Sobre o Mundo

Óbidos é lindíssima, e o ambiente que a rodeia é deslumbrante.
Cercada por uma muralha espectacular permite-nos passear, e desfrutar da pousada que é divinal. Cada cantinho parece ter sido tirado de um quadro qualquer.
Vale a pena passar lá um fim-de-semana romântico.
Os seus restaurantes e demais lugares, como bares e casas típicas são um sítio óptimo para descansar, e para fugir ao stress citadino. Neste sentido, digo-vos que nem que seja por uma vez na vida vale a pena ir a Óbidos e apreciar o encanto deste lugar único.

Quando posso lá vou eu dar uma escapadela até este lindo lugar, porque pensar num fim-de-semana de pura descontracção e tranquilidade, é uma ideia inevitável... e possível de ser concretizada... é um sonho tornado realidade... para uma sempre necessária revitalização, rodeado de aromas e sabores especiais, entre uma Ginjinha e um Toupeiro, ao som de "Sometimes You Can't Make It On Your Own"...


Tough, you think you've got the stuff
You're telling me and anyone
You're hard enough

You don't have to put up a fight
You don't have to always be right
Let me take some of the punches
For you tonight

Listen to me now
I need to let you know
You don't have to go it alone

And it's you when I look in the mirror
And it's you when I don't pick up the phone
Sometimes you can't make it on your own

We fight all the time
You and I... that's alright
We're the same soul
I don't need... I don't need to hear you say
That if we weren't so alike
You'd like me a whole lot more

I know that we don't talk
I'm sick of it all
Can you hear me when I sing
You're the reason I sing
You're the reason why the opera is in me...

Where are we now?
I've got to let you know
A house still doesn't make a home
Don't leave me here alone...

fotografias: Å®t Øf £övë
música: "Sometimes You Can't Make It On Your Own"

quarta-feira, setembro 05, 2007

Poesia alentejana

Estava há pouco, fazia muito tempo, à volta do Abacate dos meus "Versos de afrudite" quando o meu amigo Cavaleiro da Costa (alentejano de gema e clara alfacinha) me brinda com a porra dum mail com poema que fala assim:

O CARACOLI...

Tava eu tirando moncos
lá da cana do nariz
enquanto fazia uma mija
assim tipo chafariz

Tinha a bexiga tã chêia
que fiquê lá uma hora
quando me assomê em volta
tinha ido tudo embora

Sacudi o coiso e tal
enquanto coçava a bilha
de tal manêra atascado
que o entalê na braguilha

tirê as botas do lodo
que fizera na mijada
sacudi tamém as calças
sempre com ela entalada

pedi ajuda à Ti micas
que cerca dali morava
mas depilou-me os tomates
a força com que a puxava

ensanguentado na pila
fui aos tombos pelo monti
vomitando quasi as tripas
nã sêi se queres que te conti

como comera dôs pães de quilo
e um garrafão p'a empurrare
na admira que tivesse
três horas a vomitare

Detê-me na palha fresca
para ver se descansava
enterrê-me logo em bosta
de uma vaca que passava

E foi assim que essa tarde
conheci um caracoli
os dois deitados na palha
c'os cornos a secare ao soli
_______________
Comentário dele:
"QUANDO TIVER UM BLOG, VOU FAZER POESIA DENTRO DESTA LINHA DE PENSAMENTO. FAZ MAIS O MEU GÉNERO. (á poeta dum cabrão) !!!!
__________________
Minha resposta:

Este fez-me chorare
de tanto já me rire
não me leve a male
mas vou imprimire

Nã diz quem foi autore
Mas escrebe dirêto
Talvez seja doutore
o sacana tem jêto

Poema desta natureza
não é uma brincadêra
Escreve com pena tesa
Não bateu na azinhêra

segunda-feira, agosto 27, 2007

Talvez um dia...


Sim, talvez um dia me dispa de preconceitos e venha a publico admitir as variações das ondas P da minha caixa de fusíveis. Quem sabe nesse dia, talvez me solte das falas mansas e discurse os sentimentos em uma só voz de comando. Mande uns quantos gritos de revolta em torno deste nosso sentimento, que nos empurra a alma para o charco. E quem sabe, talvez nesse dia acabe de vez com este nosso estranho fado que nos obriga a gostar de estar na merda.
Talvez quem sabe um dia…
Assuma de uma vez por todas este meu movimento Narcisista, esta minha estranha forma de me sentir bem. Talvez nesse dia venha a descobrir que não faço suspirar todas as mulheres que se atravessam em meu passeio, que afinal não me observam atentamente enquanto desço a calçada em suaves passos de estilo.
Quem sabe talvez um dia…
Venha mesmo a descobrir a combinação secreta, que abre esse teu coração escondido na dor. Talvez nesse dia te assalte a alma e te roube esse teu sentimento de imponência, que te rasga o sorriso em cada passo teu, em cada momento em que me dizes que não.

Quem sabe…

Talvez um dia…

Venhas a entender a dor que me percorre a alma…

O amor que me assola os sentidos

A raiva que me rasga o coração

Quem sabe talvez um dia...

sábado, agosto 18, 2007

Love or sex?

Gosto tanto de ouvir-te como de tocar-te.
Só depende do momento.
Quando os dois momentos são um só, fica perfeito.
E então, gosto de olhar-te,
Enquanto te cheiro
E perco-me a sentir-te...

sábado, agosto 11, 2007

Nada Vence as Paixões Profundas de Cada Um

As paixões opõem-se às paixões, e podem servir de contrapeso umas às outras; mas a paixão dominante não se pode conduzir senão pelo seu próprio interesse, real ou imaginário, porque ela reina despoticamente sobre a vontade, sem a qual nada se pode. Contemplo humanamente as coisas, e acrescento nes­se espírito: nem todo o alimento é próprio para todos os cor­pos; nem todos os objectos são suficientes para tocar deter­minadas almas. Quem acredita serem os homens árbitros soberanos dos seus sentimentos não conhece a natureza; consiga-se que um surdo se divirta com os sons encantado­res de Mureti, peça-se a uma jogadora, que está a jogar uma grande partida, que tenha a complacência e a sabedo­ria de se enfadar durante a mesma, nenhuma arte pode fazê-lo.
Os sábios enganam-se quando oferecem a paz às paixões: as paixões são inimigas dela. Eles elogiam a mo­deração para aqueles que nasceram para a acção e para uma vida agitada; que importa a um homem doente a delicadeza de um festim que lhe repugna? Nós não conhecemos os defeitos de nossa alma; mas ainda que pudéssemos conhecê-los, raramente havería­mos de os querer vencer.
As nossas paixões não são distintas de nós mesmos; al­gumas delas são todo o fundamento e toda a substância da nossa alma. O mais fraco dos seres iria querer perecer para se ver substituído pelo mais sábio? Dêem-me um es­pírito mais justo, mais amável, mais penetrante, aceito com alegria todos esses dons; mas se me tiram também a alma que deve desfrutar dele, esses presentes não são nada pa­ra mim.
Isso não dispensa ninguém de combater os seus hábitos e não deve inspirar aos homens nem abatimento nem tristeza. (...) A virtude sincera não abandona os seus amantes; os próprios vícios de um homem bem-nascido podem passar a contribuir para a sua glória.

Luc de Clapiers Vauvenargues, in 'Das Leis do Espírito'

segunda-feira, julho 23, 2007

A vida serve para foder, amar, e morrer...

Passamos a vida a tropeçar em desencontros, em chegar tarde de mais ao que queremos viver. Por isso é que vivo tudo o que me dá na real gana. Estes últimos anos foram prodigiosos, sinto que rejuvenesci... sim, porque o sexo renova.
A quantidade de flirts, noites com Harmony, e outras menos harmoniosas que passei, fazem-me saber bem o que quero... quero continuar a viver de uma forma despreconceituosa. A opinião dos outros sobre a minha vida é pouco relevante.
É bom saber que vou sempre a tempo de viver o que quero, porque o coração nunca se deve adiar.

domingo, julho 22, 2007

Poema com palavras usadas

( Tardei em responder ao meu próprio desafio... mas cá está!)

Mega & JB

Reconhecer o talento
Ocultar os disparates
Dinheiro excêntrico
Aplausos aos dislates

Coleccionador de nomes
Minha sombra, meu ego
Imperfeições sublimes
Sentimento sem apego

Fantástico é o poder
Libertar o criador
Fantástico é parecer
Essa a arte do sedutor

Público poderoso
Agir para o que for
Trabalhar e expor
Num museu fabuloso
_____________
Pedro Arunca
2007/07/22

domingo, julho 08, 2007

Quase...


"Pior que a convicção de um não
ou a incerteza de um talvez
é a desilusão de um "quase"
é o quase que me incomoda, que me entristece,
que me mata trazendo tudo o que poderia ter sido e não foi.
Quem quase ganhou, ainda joga
Quem quase passou, ainda estuda
Quem quase morreu, está vivo
Quem quase amou, nunca amou"
(Luís Fernando Veríssimo)
Muitas vezes penso nas coisas que quase fiz, nas palavras que quase disse, nos lugares onde quase cheguei, nas pessoas que quase conheci, nos desejos que quase realizei, nos momentos que quase vivi.
Não penso nelas como uma perda... na verdade, nunca cheguei a tê-las. Estive perto. Estive quase.
Nunca ninguém me disse que não as podia ter. Nunca ninguém me disse que não as merecia. Apenas me desencontrei de umas e cheguei tarde a outras.

Consigo lidar bem com as perdas definitivas. Sou Escorpião e, tal como dizem os astros, morro e renasço facilmente. Supero o que não é possível. Esqueço o que não está ao meu alcance.
Um não doi, magoa, fere... mas liberta-me e faz-me querer virar a página. Consegue ter em mim um poder regenerador, que me faz querer seguir em frente, mesmo que noutra direcção.

Já o talvez desafia-me, atiça-me, motiva-me. Saber que talvez possa ir por ali, ou por acolá... saber que talvez possa chegar onde quero... que talvez possa ser, sentir, viver o que desejo... deixa-me inquieta, ansiosa e desperta em mim uma teimosia sem limites.
O talvez incomoda, enerva, fervilha... mas tem um gosto doce de possibilidade, que só perderá ao transformar-se num não.

Mas o quase... deixa uma sensação de vazio. Vazio de algo que esteve próximo, mas não chegou a estar.
É um talvez que deixou de o ser, mas que nunca chegou a ser não. É um livro que perdi, sem ter acabado de ler.
Dizer que se esteve "quase a.." poderá parecer reconfortante. Afinal, significa que tentámos, que fizemos alguma coisa e que quase conseguimos. Não foi uma derrota imediata. Tivemos possibilidade e estivemos quase lá.
Quase... mas não chegámos a estar.

Não gosto dos quases que existem na minha vida. Não me libertam. Não me reconfortam. Pelo contrário, transformam tudo o que esteve quase... em quase nada.

sexta-feira, julho 06, 2007

Hey Joe...

O Pedro Arunca propôs-nos publicarmos aqui no "Pedaços de Nós" um texto retirado de um jornal, o qual ele irá utilizar como base de inspiração para construir um poema.
Vou transcrever um artigo de opinião do Fernando Marques, intitulado "Hey Joe...", e publicado no Jornal de Notícias do dia 01/07/2007.

Quando eu for rico como Joe Berardo e tiver uma colecção de arte ainda mais moderna e contemporânea do que a dele, hei-de lembrar-me que o dinheiro pode comprar aplausos para os meus disparates, mas jamais será capaz de ocultar as minhas imperfeições. Hei-de lembrar-me de não agir como dono do mundo, porque, querendo parecer o que não sou, serei exactamente aquilo que pareço uma ilusão.

Quando eu for excêntrico como Joe Berardo e quiser expor os meus valiosos tarecos artísticos num museu, hei-de lembrar-me que não fui eu que os fiz; e que, por isso, é inútil e ridículo emprestar-lhes o meu nome, oferecer-lhes a minha sombra, sobrepor-lhes o meu ego. Hei-de lembrar-me de os libertar do meu sentimento de posse, do meu apego, para que, destituídos de mim, exprimam o que realmente são.

Quando eu for poder como Joe Berardo, hei-de lembrar-me de designar as pessoas pelos seus nomes. Hei-de lembrar-me de não dizer "O homem não está a ser bem aproveitado, talvez até nem precise de trabalhar", como se esse homem sem nome - que, por acaso, se chama António Mega Ferreira e, por acaso, é presidente do CCB e, por acaso, é um criador e não um coleccionador - fosse apenas mais um objecto do meu acervo.

Quando eu for extraordinário, sublime, fantástico, belo e sedutor como Joe Berardo, hei-de lembrar-me de permitir que os outros sejam tão extraordinários, sublimes, fantásticos, belos e sedutores como eu. Por exemplo, hei-de lembrar-me de reconhecer o talento de Rui Costa e o direito que ele teve de cumprir o melhor da sua carreira fora do Benfica. E hei-de lembrar-me - apesar do tipo fabuloso que eu serei quando for extraordinário, sublime, fantástico, belo e sedutor como Joe Berardo - de pensar duas vezes antes de emitir juízos públicos sobre outras pessoas. Não porque isso pesasse realmente no curso próspero da minha vida. Apenas para evitar que eu, um homem tão rico, excêntrico, poderoso, extraordinário, sublime, fantástico, belo e sedutor como Joe Berardo, tivesse que andar sempre a pedir desculpas pelos meus dislates.

Pedro desejo-te boa sorte para esta iniciativa, e espero que o texto te inspire...

Texto original pode ser lido [Aqui]

quarta-feira, julho 04, 2007

Poema com palavras usadas

Não, não é uma campanha nem uma corrente. É um desafio a que me proponho. Só preciso que, pelo menos um dos inquilinos deste blogue, me forneça um, dois ou três textos (artigo, notícia, ensaio, etc) retirado(s) dum jornal e/ou revista conhecido(s) (DN, JN, Público, Expresso, etc).
A ideia é tentar construir um poema a partir das palavras usadas nesse(s) texto(s).
O(s) texto(s) deverá(ão) ser "postados" previamente (digitalizado se possível e mantido na posse do "postador").

Um abraço

domingo, junho 24, 2007

O Meu Olhar Sobre o Mundo


Like a Summer in Paris... at night
Far away from all my worries... I can live again
Far away from the cool... I run away... to Paris
And in your arms, I forget myself... all night long

Summer in Paris...
Like a Summer in Paris... at night
A sublime desire of a Summer in Paris
I miss that kiss...
On Summer in Paris...


fotografia: Å®t Øf £övë
música: Summer in Paris

sábado, junho 23, 2007

A mulher que oferecia pedras

“Nunca escreveu cartas de amor. A mulher, que também poupava palavras, não deixou nunca de lembrança escritos de amor a ninguém. Não porque não o sentisse, apenas não o escrevia. Por que haveria de o fazer? Quando amava alguém, estivesse essa pessoa perto ou distante, oferecia pedras. Não eram preciosas, senão para ela. Pedras normais. Podia recolhê-las na praia, numa serra, na rua. Podiam ser brita, pedras cristalinas, calcárias, pirites, quartziticas... Podiam ser ovais, macias, rugosas, redondas... um cubo tosco da pedra de calçada. Eram sempre diferentes. Todos os seus amantes tinham uma pedra sua. Só uma, que a mulher nunca foi de excessos. Afinal, bastava dizer uma vez que os amava. Mesmo as cartas de amor não são tão frequentes. Na pedra estava tudo o que sentia.
Um dia a mulher morreu. No seu funeral reuniram-se os amantes. Cada um com a sua pedra. Não era algo que não guardassem. Não se rasga como se faz com uma carta de amor. E nunca levariam consigo uma carta de amor, já a pedra...
Ao encontrarem-se não evitaram a comparação. Não seria por isso que as teriam levado? Qual seria a mais bonita. A mais rara. A de mais valor. Qual mostraria uma maior indiferença. Não contava ali a duração da relação. Nem tão pouco as relações que implicaram uma vida a dois. Apenas as pedras. Uma pedra pequena, branca, igual a tantas outras em qualquer praia, só poderia significar desdém. A pedra-pomes valeria mais do que o granito comum? Um deles garantia que a sua pedra oval de um esverdeado transparente era, sem dúvida, rara. Se as cartas de amor que, a cada altura e para cada pessoa, são escritas com a mesma verdade, beleza e intensidade, porque não poderiam ser as pedras iguais? Cada uma, única. Cada uma bela. Cada uma amável. Cada uma, a seu tempo, no seu tempo, especial. Mas para eles, que se exaltavam já, tinha de haver uma hierarquia. A mulher diria, como Angel Cabeza, ao vê-los, se os visse “Os homens sofrem como as pedras: cheios de musgo verde e caras feias”.
Um dos amantes esteve sempre em silêncio. A sua pedra, a mais pequena, que fechava na sua mão, tinha escrito o nome da mulher. Sorriu. Foi embora. Nada disse, como a pedra, que nada dizendo, disse-o.”

Voz que se cala

Amo as pedras, os astros e o luar
Que beija as ervas do atalho escuro,
Amo as águas de anil e o doce olhar
Dos animais, divinamente puro.

Amo a hera que entende a voz do muro
E dos sapos, o brando tilintar
De cristais que se afagam devagar,
E da minha charneca o rosto duro.

Amo todos os sonhos que se calam
De corações que sentem e não falam,
Tudo o que é Infinito e pequenino!

Asa que nos protege a todos nós!
Soluço imenso, eterno, que é a voz
Do nosso grande e mísero Destino!...

(Florbela Espanca)